TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
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Pré-candidatos às eleições 2020 preveem campanha curta e com TV

Incertezas geradas pela pandemia da covid-19 geram atrasos na contratação de equipes de marketing eleitoral

Paula Reverbel e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2020 | 05h00

A cinco meses das eleições municipais, três incertezas rondam as campanhas para prefeito. Ainda há dúvidas se o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vai manter a data da votação para 4 de outubro, se o Fundo Eleitoral será ou não destinado para o combate à pandemia do novo coronavírus e sobre como será a campanha em meio às regras de isolamento social.

Políticos e profissionais que trabalham com partidos políticos avaliam que terão que lidar com uma campanha mais curta e sem contato físico, além de mais dependente da TV. 

As redes sociais não devem ter o mesmo papel que nas eleições de 2018, segundo o pesquisador Renato Meirelles, fundador do Data Popular e hoje dono do Instituto Lokomotiva. Ele observa que oito em cada dez brasileiros afirmam que sua franquia de dados no celular não dura o mês inteiro. 

Meirelles aponta para o aumento do uso de TV e rádio como ferramenta de informação. “A internet serve para blindar o eleitorado fixo, ou seja, o piso que ele tem”, afirmou o pesquisador. “A TV vai ter um papel importante para desarmar as fake news.” Outros especialistas ouvidos pelo Estadão manifestaram opiniões semelhantes. 

Com a previsão de uma campanha relâmpago e sem os tradicionais eventos eleitorais, os pré-candidatos com maior tempo de TV deverão ter vantagem. Os partidos têm evitado fechar contratos, já que não sabem se o dinheiro virá. Em São Paulo, o prefeito Bruno Covas (PSDB), candidato à reeleição, é um dos poucos que já contrataram um advogado eleitoral, e os trabalhos seguem em marcha lenta, comparado que o que seria esperado sem a covid-19. 

Financiamento

Publicitários ouvidos pela reportagem contam que, em condições normais, este seria o momento de realizar pesquisas, fazer eventos para divulgar apoios partidários e montar as equipes de comunicação e marketing. “As campanhas já saberiam que vão tocar”, disse o publicitário Nelson Biondi. Responsável por diversas campanhas tucanas e do ex-governador Paulo Maluf, ele decidiu ficar de fora neste ano. “Esse mercado já era ruim e ficou pior.” 

Uma das principais incertezas é em relação ao dinheiro. Enquanto as parcelas do Fundo Partidário continuam sendo transferidas às legendas pelo TSE, o Fundo Eleitoral é uma bolada única, com liberação programada para meados de junho – justamente a época que epidemiologistas apontam como o possível pico da pandemia no Brasil. 

No entorno de Bruno Covas já se discutem formas de realizar a convenção de julho de forma virtual. O desafío é encontrar uma solução técnica que respeite o voto secreto e comporte mil delegados em rede. “Nossa preocupação e empenho é para que tudo possa ser feito pela internet”, disse César Gontijo, que integra a executiva nacional do PSDB. 

A equipe do prefeito está focada em manter o calendário eleitoral. Já a maioria dos adversários ouvidos pelo Estadão não se opõem à adiar o pleito, desde que ainda ocorra neste ano e não acarrete em prorrogação dos mandatos de quem é prefeito ou vereador atualmente. 

Essa possibilidade é admitida pelo ex-governador Márcio França (PSB), pelos deputados federais Joice Hasselmann (PSL) e Orlando Silva (PC do B), pelo deputado estadual Arthur do Val (conhecido como Mamãe Falei, do Patriotas) e pelo ex-ministro Andrea Matarazzo (PSD), todos pré-candidatos. O PSOL, que vai lançar chapa com Guilherme Boulos e Luiza Erundina, também informou que não é contra o adiamento nesses termos. 

Já o pré-candidato do Novo, Filipe Sabará, disse ainda não ver necessidade de falar em adiamento, mas acrescentou que avaliará a questão nas próximas semanas. 

O PT é contra discutir o adiamento, ao menos neste momento. A reportagem entrou em contato com a pré-candidata Marta Suplicy (SD), mas não obteve resposta. 

“As eleições podem ser adiadas se o clima estiver como agora. Seria impossível produzir uma eleição tranquila com essa pandemia. Se for em dezembro, a gente ganha dois meses para evitar problema”, ponderou França. 

“A decisão de prorrogar ou não as eleições é como a decisão pelo isolamento social, tem que ser definida por médicos”, defendeu Andrea Matarazzo. “Praticamente suspendi a pré-campanha e coloquei foco no combate à pandemia”, afirmou o pré-candidato Orlando Silva, que é deputado federal e um dos autores do projeto de lei da renda mínima emergencial. 

“Atrasa a contratação de pré-campanha já que, normalmente, você passaria a contratar em junho, para preparar a coleta de dados”, afirmou França, sobre a indefinição em relação ao Fundo Eleitoral. 

“Todos os esforços têm que ser direcionados ao combate à covid. Mas há muito barulho em torno do Fundo, cujo valor não significaria grandes resultados (para o lidar com a pandemia)”, argumentou Joice Hasselmann. “O Fundo Eleitoral não (ajudaria) e ainda deixaria a questão de como a eleição será custeada, porque o custo da democracia existe”, concluiu. 

TSE monitora reflexos da pandemia no calendário

A eventual necessidade de se adiar as eleições é um cenário monitorado de perto por um grupo de trabalho instituído em abril pelo TSE. Apesar da pandemia do novo coronavírus, o tribunal afirma que, por enquanto, tem dado conta de manter o seu cronograma de providências materiais e testes para que o calendário eleitoral não sofra alterações. 

Como a constituição prevê que a eleição deve ser realizada “no primeiro domingo de outubro do ano anterior ao término do mandato dos que devam suceder”, qualquer mudança de data, por menor que seja, requer aprovação de uma proposta de emenda constitucional. Ou seja, precisa de duas votações na Câmara – com aprovação de ao menos 308 dos 513 deputados – e outras duas no Senado, com o aval de 49 dos 81 senadores. 

No mês passado, pouco depois de tomar posse como presidente do TSE, o ministro Luís Roberto Barroso afirmou que se empenharia para “evitar qualquer tipo de prorrogação na medida do possível”. Ele admitiu, porém, que o contexto da pandemia é que definiria a data da votação. “Se não tivermos condições de segurança, teremos de considerar o adiamento pelo prazo mínimo.” 

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