Postura de Dilma em Havana frustra entidades

Ativistas de direitos humanos no exterior e no Brasil lamentam ausência, na visita da presidente a Cuba, de crítica ao regime

LUCAS DE ABREU MAIA , SÃO PAULO, JAMIL CHADE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2012 | 03h06

Entidades internacionais de defesa dos direitos humanos com representação no Brasil criticaram ontem a postura da presidente Dilma Rousseff que, em visita oficial a Cuba, evitou fazer críticas sobre violações políticas do regime castrista sob o argumento de que há problemas em vários países, citando especificamente a base de Guantánamo mantida pelos Estados Unidos.

"Quem atira a primeira pedra tem telhado de vidro. Se vamos falar de direitos humanos, nós começaremos a falar de direitos humanos no Brasil, nos Estados Unidos, a respeito de uma base aqui chamada Guantánamo", disse Dilma em Cuba.

Já no Brasil, a declaração da presidente foi bem-recebida no Planalto e no Itamaraty. Em conversas reservadas, diplomatas disseram que Dilma quis mostrar que o problema não se resolve com acusações entre países, mas com diálogo.

O diretor executivo da Anistia Internacional no Brasil, Atila Roque, afirmou que o governo brasileiro "perdeu uma oportunidade" de colocar na pauta a discussão sobre as violações dos direitos humanos em Cuba. "Não estou subestimando a delicadeza do assunto. É preciso reconhecer que qualquer atitude que possa ser percebida como intervenção, ingerência, deve ser levada em conta. Mas o Brasil talvez seja um dos poucos que tenham isenção suficiente, porque sempre tivemos uma relação de amizade e uma história de intercâmbio econômico, político e acadêmico com Cuba."

Para Roque, as declarações de Dilma foram "frustrantes" por serem diplomaticamente "convencionais". O diretor da Anistia menciona a mudança de tom da política externa brasileira com o Irã como evidência de que o governo Dilma tem adotado uma postura de menos tolerância com violações dos direitos humanos. "Causou certo desgosto não ver isso acontecer também em relação a Cuba." No Twitter, ele foi mais enfático ao dizer que Dilma diluiu "as questões dos direitos humanos em Cuba sob o manto de Guantánamo".

A ONG Conectas também divulgou nota em que afirma que o reconhecimento, pela presidente, de que existem violações aos direitos humanos no Brasil "não é um impedimento para contribuir com o respeito aos direitos em qualquer outro lugar do mundo". "A presidente perdeu a oportunidade de levar às vítimas de violações de direitos humanos em Cuba a solidariedade do Brasil."

ONU. Ainda que oficialmente a Organização das Nações Unidas ( ONU) tenha endossado as críticas de Dilma a Guantánamo, nos corredores da entidade em Genebra diplomatas estrangeiros alertavam, sob a condição de anonimato, para o incômodo silêncio da presidente brasileira em relação à situação dos direitos humanos em Cuba. O fato, segundo eles, afeta a credibilidade de Dilma, que assumiu o mandato com a promessa de apontar violações sempre que ocorrerem.

"Se todos têm telhado de vidro, não há porque ter um problema em falar do telhado cubano", disse um negociador europeu. Outro, da missão dos EUA, "lamentou" que Dilma tenha citado só Guantánamo. Para um diplomata latino-americano, se Dilma critica a todos, sem distinção, "não é para valer", mas "desculpa para não falar dos amigos".

A assessoria de imprensa da ONU destacou que, há uma semana, a cúpula da entidade atacou justamente o mesmo ponto levantado por Dilma. "Já são dez anos desde a abertura da prisão de Guantánamo pelos EUA, e agora três anos desde 22 de janeiro de 2009, quando o presidente ordenou seu fechamento no prazo de doze meses", declarou a Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, num recado aos EUA. "Ainda assim, a prisão continua a existir e indivíduos continuam arbitrariamente detidos." A ONU acusou Barack Obama de ter fracassado em cumprir a promessa feita há três anos de fechar Guantánamo e pediu solução "imediata", mas recusou-se a comentar o silêncio de Dilma em relação a Cuba.

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