Helvio Romero/Estadão
Helvio Romero/Estadão

Porta-vozes de Marina entram em contradição

Opiniões externadas por assessores provocam idas e vindas em propostas na área econômica

João Domingos / BRASÍLIA , Anna Ruth Dantas / ESPECIAL PARA O ESTADO / NATAL

20 de setembro de 2014 | 21h00

A democracia de alta intensidade prometida pela candidata do PSB à Presidência, Marina Silva, parece já estar em curso no debate de seu programa econômico - e produzindo curtos-circuitos. Com pelo menos seis porta-vozes para a área, além dela própria e do falecido cabeça de chapa Eduardo Campos, o time se mostra desentrosado.

Em entrevistas ao Estado, dois dos principais auxiliares da candidata, o coordenador de programa de governo, Bazileu Margarido, uma das pessoas de maior confiança de Marina Silva, e o conselheiro econômico Eduardo Giannetti da Fonseca entraram em choque ao falar sobre o papel da Petrobrás na exploração do pré-sal - se a empresa estatal deve continuar como operadora única dos poços.

“(O papel) será mantido”, afirmou Margarido. “A Petrobrás detém tecnologia de ponta para a exploração do pré-sal”, disse o assessor que foi escalado para pôr ordem na casa (mais informações abaixo). Ele acrescentou que a estatal é “competente e competitiva” para a tarefa.

Já Giannetti se mostrou em dúvida. “O que ocorreu agora na Petrobrás, na medida em que ela foi aparelhada pelo PT para isso tudo que nós descobrimos, estarrecidos, causa muita incerteza em relação à capacidade de a Petrobrás, se não mudar de rumo, poder fazer com competência o papel estratégico que lhe cabe dentro do modelo do pré-sal”, disse o economista. “A Petrobrás precisa ser recolocada na sua seriedade, na sua competência, com quadros técnicos qualificados para poder cumprir o papel importante que ela tem nesse caminho.”

O questionamento sobre como deve ser a atuação da estatal partiu do coordenador da campanha de Marina, Walter Feldman. Ele comentou que o peso excessivo não faria bem à Petrobrás. Com isso, sinalizou para uma possível mudança no marco regulatório do pré-sal, o que poderia significar um atraso na exploração das reservas. Se essa proposta vingar, Marina acabará dando razão aos que a acusam de tirar prioridade do pré-sal, pois o debate sobre o tema costuma ser longo e acalorado.

“Marina nunca se colocou contrária ao pré-sal”, disse Giannetti. “O que ela disse é que dará ênfase às fontes de energias renováveis, o que não significa que ela não vai desenvolver e explorar algo que é muito importante para o Brasil, que é a riqueza do pré-sal.”

Recuos. Esse não foi o único imbróglio econômico em que Marina se envolveu por causa de seu entorno. Ela dedicou a semana passada à tarefa de reafirmar seu compromisso com os direitos dos trabalhadores.

A impressão contrária nasceu do próprio programa da candidata, que fala em “modernizar as relações entre empresas e empregados”. Ela mesma permitiu a abertura de um imenso flanco para ser atacada, ao pregar uma “atualização” da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) sem dizer, exatamente, o que isso significa.

A presidente Dilma Rousseff aproveitou a deixa: afirmou que não mexerá na CLT, que garante direitos dos trabalhadores, “nem que a vaca tussa”.

 

Outro recuo foi registrado no domingo passado. Após fazer um comício em Ceilândia, maior cidade-satélite do Distrito Federal, Marina defendeu que a meta de inflação deveria ficar em 4,5% ao ano. Com isso, desautorizou o principal conselheiro econômico de Eduardo Campos, Alexandre Rands, que havia sugerido elevar a meta. Ao Estado, Rands disse que tem dado opiniões pessoais sobre a economia, e que elas podem diferir do programa.

Incongruência. Porém, o que ele propôs faz sentido num cenário de Banco Central independente. Em um quadro de inflação alta, uma meta maior significa menor necessidade de subir os juros.

A promessa de dar independência em lei ao Banco Central foi a fórmula encontrada por Campos para se diferenciar do candidato tucano Aécio Neves (PSDB) na crítica à política econômica de Dilma. Isso tornou-se uma marca da curta campanha do ex-governador de Pernambuco, morto em agosto.

Por isso, Marina se viu compelida a manter o compromisso, apesar de seu principal conselheiro econômico, Eduardo Giannetti da Fonseca, ter uma visão um pouco diferente.

Em entrevista concedida ao Estado em fevereiro, ele disse que o Banco Central deveria recuperar sua autonomia, mas como início de um processo até se chegar à independência formal. “Não estamos institucionalmente maduros ainda para dar esse passo”, declarou.

Coube à outra conselheira de Marina, a educadora Maria Alice Setubal, conhecida por Neca Setubal, deixar claro que a promessa de Campos seria mantida. Agora, essa parece ser uma das poucas certezas apresentados pelo entorno marineiro. “A proposta do Banco Central independente continua valendo”, afirmou o coordenador do programa de governo, Bazileu Margarido. “É a forma de evitar que ocorram interferências políticas na política financeira.”

Campo minado. Até o espólio de ideias de Campos gera trombadas no front econômico. Marina disse desconhecer a promessa dele - feita em Limeira, no interior paulista, 23 dias antes do acidente aéreo que o vitimou - de divulgar uma proposta detalhada de reforma tributária ainda antes do 1.º turno eleitoral, para poder debatê-la e enviar ao Congresso, caso fosse eleito, tão logo assumisse a Presidência da República. Ela disse que a o compromisso era enviá-la no primeiro mês de governo.

A miríade de porta-vozes econômicos de Marina ganhou um acréscimo nessa semana: José Antônio Sant’Ana. Em debate no Conselho Regional de Economia, em Brasília, ele disse que a candidata pensa em adotar o Imposto sobre Grandes Fortunas. Dizer ele disse... Até ser desautorizado.

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