Renato Bueno/Divulgação
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Por 2022, Huck estreita relação com DEM e almoça com Maia

Apresentador intensifica articulação por uma frente de centro para se contrapor a Bolsonaro; presidente da Câmara é contra chapa com Moro

Camila Turtelli e Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2020 | 18h29
Atualizado 09 de novembro de 2020 | 19h58

BRASÍLIA – O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), almoçou nesta segunda-feira, 9, na casa do apresentador de TV e empresário Luciano Huck, no Rio de Janeiro. Huck está intensificando as articulações para sua possível candidatura à Presidência, em 2022, e tem se encontrado com vários líderes políticos. No mês passado, por exemplo, ele viajou para Curitiba, onde se reuniu com o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro, que também tem planos para 2022. 

A ideia de Huck é construir uma frente de centro para enfrentar o presidente Jair Bolsonaro, daqui a dois anos. A vitória de Joe Biden na eleição para a presidência dos Estados Unidos deu novo ânimo ao projeto que prevê uma estratégia unificada para derrotar Bolsonaro. Até agora, porém, todos os movimentos esbarraram em disputas sobre o nome capaz de liderar uma chapa assim. Interesses partidários de curto prazo sempre funcionaram como obstáculo a movimentos que escapam da tradicional polarização entre direita e esquerda.

Maia já disse ser contra compor uma chapa com Moro, ex-juiz da Lava Jato com quem tem várias divergências. O DEM alinhavou um acordo para apoiar a candidatura do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), à sucessão de Bolsonaro, mas tudo pode mudar até 2022. Não é de hoje que Maia – interlocutor de Huck – vem dizendo que Doria não é unanimidade no partido. Em entrevista à Veja, no fim de semana, o presidente da Câmara afirmou que a maioria do DEM, atualmente, prefere Huck a Doria.

Nos bastidores, o almoço oferecido nesta segunda-feira por Huck a Maia, noticiado pela coluna de Lauro Jardim, foi interpretado como uma tentativa do anfitrião de “apagar a foto com Moro” e reafirmar sua aproximação com o grupo autointitulado “centro progressista” ou “centro democrático”. O encontro de Huck com o ex-juiz da Lava Jato ocorreu no dia 30 de outubro e foi revelado pelo jornal Folha de S. Paulo. O apresentador de TV foi muito criticado por simpatizantes, que viram no seu gesto uma forma de sair na frente para fechar aliança com Moro.

Em entrevista à CNN Brasil, o presidente da Câmara minimizou o peso político do almoço com o apresentador de TV e afirmou que encontra o "amigo" sempre que está no Rio de Janeiro. "Estamos discutindo muito mais o cenário de curto prazo, o que o governo deveria fazer, a agenda econômica, a agenda social, do uma preocupação com o processo eleitoral."

O deputado afirmou ainda que as articulações para as próximas eleições presidenciais começam no segundo semestre do ano que vem. O que deve ditar as “regras”, segundo ele, é a agenda do governo nos próximos seis meses. “Se o governo escolher o caminho da responsabilidade fiscal, tem uma força. Se caminhar para uma agenda mais heterodoxa, acho que é uma força muito menor. Isso é que vai fazer com que as forças políticas se movimentem no futuro. Mas não agora.”

O presidente da Câmara já afirmou que não aceita “de jeito nenhum” apoiar Moro, considerado por ele como de extrema- direita. No passado, o deputado e o então ministro da Justiça se desentenderam em público. Maia chegou a acusar Moro de “copiar e colar”, no pacote anticrime, proposta discutida em 2018 por uma comissão de juristas, presidida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.

Huck tenta construir ‘terceira via’; Ciro fica de fora

Huck faz parte de um grupo que vem discutindo há tempos a formação de uma terceira via para combater Bolsonaro. A ideia foi apadrinhada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ainda em 2018, mas à época não foi adiante.

Neste ano, Huck já se reuniu com políticos de centro e de esquerda para tentar tirar do papel essa proposta. O presidenciável Ciro Gomes (PDT) nunca participou desses encontros, mas recentemente se reuniu com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com quem estava brigado – fato que também provocou protestos nas fileiras petistas.

Além de Maia, o presidente do DEM, ACM Neto – que é prefeito de Salvador – e os governadores do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), e do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), são entusiastas da ideia de união contra o bolsonarismo, em 2022.

“Mas, na hora em que se coloca o Moro no meio disso, muda esse perfil. É impossível imaginar que algum segmento mais à esquerda ou centro-esquerda vá dialogar com o Moro, até mesmo por causa do protagonismo que ele teve (no passado) para gerar o bolsonarismo”, disse Dino ao Estadão/Broadcast.

O governador do Maranhão já participou de reuniões onde foi discutida essa aliança eclética e também é um dos pré-candidatos ao Palácio do Planalto. A transferência de Dino para o PT chegou a ser cogitada, mas nada está decidido. 

Na avaliação de interlocutores de Huck, a estratégia que prevê o casamento entre as várias forças de centro ganha força com a vitória do democrata Joe Biden, um moderado que desbancou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, republicano de extrema-direita. 

Para o presidente do Cidadania, Roberto Freire, o encontro entre Huck e Moro foi “um movimento importante”, apesar das críticas. “Um candidato (Biden) teve a capacidade de juntar setores à esquerda e à direita do arco democrático e ser vitorioso. Precisamos pensar aqui. Isso precisa ser ressaltado da parte de Huck e de Moro”, disse Freire, ex-ministro da Cultura. “Vamos dar os próximos passos, continuar dialogando e aprofundado na sociedade a compreensão da necessidade de unidade das forças democráticas. Isso, nos Estados Unidos, deu certo contra Trump. O sentido político é o mesmo. É um processo de conversas com esse objetivo, de juntar o que for de oposição ao obscurantismo, ao retrocesso, ao anacronismo, ao negacionismo, a Bolsonaro”, argumentou.

Freire é um dos expoentes políticos mais ativos na estratégia de costurar frentes amplas, desde os tempos do Partidão, o PCB, na ditadura militar. Por ele, Huck já estaria filiado ao Cidadania, mas o apresentador ainda não bateu o martelo sobre qual será sua legenda.

“Todo mundo conversa com todo mundo”, afirmou o senador Álvaro Dias (PR), líder do Podemos e aliado de Moro. Dias disse que foi avisado do encontro entre Huck e o ex-juiz da Lava Jato, mas preferiu a discrição. “Não sei se eles conversaram sobre o Caldeirão do Huck ou as sentenças do Moro”, ironizou.

Moro e Huck não chegaram a estabelecer nenhuma definição mais concreta sobre candidatura, segundo seus interlocutores. Dos dois lados há a impressão de que é cedo para avaliar quem seria cabeça de chapa e vice. Uma escolha precoce poderia encerrar as conversas.

Além disso, Moro tem adotado cautela ao investir no mundo político por causa de recursos judiciais que o acusam de parcialidade. A defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por exemplo, é uma das que buscam reverter sentenças contra o petista e alega “suspeição” do ex-juiz da Lava Jato.

Quando se demitiu do governo Bolsonaro, em abril, Moro disse que estaria sempre “à disposição do País”. O ex-ministro ainda é cortejado por partidos de centro-direita, como o Podemos, que empunhou a bandeira da Lava Jato no Congresso, embora abrigue políticos simpáticos a Bolsonaro.

Huck também se colocou no jogo. “Estou aqui”, disse ele em setembro, quando indagado se entraria mesmo em campanha pelo Planalto, num encontro do Conselho Político da Associação Comercial de São Paulo. O apresentador manifestou o desejo de “liderar uma geração” na política. Em 2018, Huck ensaiou se lançar candidato à Presidência, mas desistiu. / COLABOROU BIANCA GOMES

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