Policial cai por prever 'camburão' para Agnelo

Chefe da polícia no Distrito Federal é exonerado após divulgação de vídeo em que cita governador e denúncias de corrupção

Fávio Fabrini, de O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2012 | 03h06

BRASÍLIA - O diretor-geral da Polícia Civil do Distrito Federal, Onofre Moraes, pediu exoneração do cargo nessa quinta-feira, 2, após a divulgação de um vídeo no qual aparece dizendo que o governador Agnelo Queiroz (PT) acabará deixando o governo "de camburão da Polícia Federal".

Na mesma gravação, ele acusa o vice-governador do DF, Tadeu Fillippeli (PMDB), de integrar esquema para boicotar uma licitação e, supostamente, favorecer empresários. "Ele (Fillippeli) está pegando os negócios do Arruda", comenta, referindo-se ao ex-governador José Roberto Arruda, que perdeu o cargo por envolvimento no chamado "mensalão do DEM".

As declarações foram feitas em junho do ano passado, quando Agnelo já era investigado pela Polícia Federal. Onofre ainda não comandava a Polícia Civil e articulava nos bastidores para ocupar o cargo. As conversas foram gravadas na casa do jornalista Edson Sombra, uma das testemunhas da Operação Caixa de Pandora, que levou à prisão de Arruda.

Além do delegado e do jornalista, aparecem no vídeo o atual diretor do Departamento de Polícia Especializada do DF, Mauro Cezar Lima, o empresário Dogival Galdino Lima Júnior, dono da DGL Empreendimentos Imobiliários, e uma quinta pessoa.

Na conversa, Onofre reclama da então chefe da Polícia Civil, Mailine Alvarenga, a quem desejava substituir. Ele cita um telefonema: "Liguei e falei: 'Quando o seu governador estiver saindo de camburão da Polícia Federal e eu estiver aposentado, só vou falar: pede à diretora para tirar ele (sic)'. Foi o recado que eu mandei. Direto", disse o delegado. Na gravação, não fica claro quem era o interlocutor.

Segundo Onofre, Agnelo acabará caindo pela visibilidade do cargo. Dirigindo-se a Mauro Cezar Lima, ele afirma: "Você é um delegado de plantão, faz seus esquemas. Vira delegado adjunto, vai fazendo seus negocinhos, ainda é pintinho. (...) O problema do Agnelo foi esse: quando ele era deputado federal e ficava só no periférico, tudo bem".

Em outro momento da conversa, Dogival Galdino queixa-se de que há uma "força-tarefa" do governo para derrubar uma licitação de terrenos da Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap), a qual teria vencido.

Onofre, então, explica que uma investigação fora aberta na Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Administração Pública, propositalmente, para anular o processo. "Sabe quem está por trás desse negócio? O Fillippeli", afirma.

O diretor-geral foi chamado para uma conversa com Agnelo ontem de manhã e, à tarde, num pronunciamento lacônico, o governo anunciou sua saída. Em nota, o governador disse ter aceitado o pedido de exoneração, embora reconhecendo o "bom trabalho técnico" que o diretor vinha realizando. É provável que o restante da cúpula da Polícia Civil também peça demissão. O substituto não foi definido.

Big Brother. Numa entrevista de despedida, Onofre se negou explicar as gravações. "Era uma conversa na casa de um amigo, como a gente conversa no botequim. Ele sempre falava que nunca gravaria um amigo", queixou-se o diretor-geral, em relação a Sombra. Quase aos prantos, o delegado interrompeu a entrevista e saiu protestando: "As pessoas não podem ficar à mercê de Big Brother".

Procurado, Fillippeli negou, por meio de assessores, as irregularidades. Ele informou que vai pedir a transcrição do vídeo à sua assessoria jurídica para tomar medidas judiciais.

O mais recente escândalo no DF começou no sábado, quando a revista Veja publicou reportagem na qual o delator do mensalão do DEM, Durval Barbosa, sustenta ter recebido de Onofre uma oferta de R$ 150 mil para não fazer denúncias contra o governo do DF. A proposta teria sido feita a Sombra. Em entrevista ao longo da semana, o delegado disse que o jornalista, na verdade, pretendia barrar uma investigação da polícia contra ele, mas, sem sucesso, estaria retaliando.

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