Policiais militares viram 'escolta' e facilitam protestos

Coronel admite mudança de postura, diz que tolerância garante 'tranquilidade para ambas as partes' e que repressão deve ser 'pontual'

ARTUR RODRIGUES, NATALY COSTA, O Estado de S.Paulo

30 Junho 2013 | 02h09

"Tudo bem, não importa o trajeto. A gente acompanha", disse um. "Vocês vão sair? Se forem pela Paulista, é só dar um toque", pediu o outro. "Isso aqui vai dar uma boa foto", brincou mais um. Para quem acompanhou um noticiário repleto de balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e violência policial, parece improvável que as conversas acima tenham sido entre policiais militares e manifestantes - mas foram.

Depois de ser criticada pelos excessos cometidos nos primeiros quatro atos contra o aumento da tarifa de ônibus, sobretudo na mobilização do dia 13, a Polícia Militar de São Paulo virou acompanhante dos protestos - sobretudo os que acontecem no centro e estão sob a vigilância da mídia.

No dia 17, na quinta e maior de todas as manifestações, a postura da PM mudou radicalmente. O major Paulo Wilhelm de Carvalho, acompanhado de apenas cinco policiais, se misturou à multidão e manteve o tom cordial durante todo o tempo. Enquanto o Movimento Passe Livre ditava o itinerário, a PM não questionava. Quando o estudante Matheus Preis informou que o protesto seguia para a Ponte Octavio Frias de Oliveira, foi o major quem comentou que "daria uma boa foto".

Durante o protesto, Wilhelm se sentou no chão com líderes do MPL para acalmar os manifestantes. A cena foi aplaudida e virou febre no YouTube. Na ocasião, o major disse ao Estado que a prova da boa vontade da PM era a presença dele praticamente sozinho no meio de todos. "Se algo der errado, sou o primeiro a ser trucidado", brincou, na ocasião.

Ele ficou com o grupo até a chegada ao Palácio dos Bandeirantes, quando uma pequena parcela dos manifestantes começou a depredar e tentar invadir o local. Então, foi forçado a fazer uma retirada estratégica.

Protagonistas. Os atos não foram isolados, mas orquestrados pelo comando. Há, agora, um direcionamento para que haja mais tolerância com quem toma as ruas em protesto.

"Existiu uma mudança de postura, sim", afirma o coronel Benedito Roberto Meira, comandante da PM de São Paulo. "Na Avenida Paulista, por exemplo, existe um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que diz que você não pode obstruir a via por causa das ambulâncias. Isso vale para a gente e para os manifestantes. Se tenho as três faixas ocupadas, devo tirá-los ou permitir?", questionou Meira.

"Entendemos que, nesse momento, com a grande quantidade de manifestações, o melhor caminho é permitir. E procurar alternativas para serviços como o de ambulância. Aí você evita o conflito, o atrito", diz o comandante. O coronel afirma que a tolerância garante "tranquilidade para ambas as partes". "A orientação é essa, que a PM não seja a protagonista, mas a facilitadora, mantendo a ordem. E agir pontualmente nos casos de vandalismo, que são exceção."

Na semana passada, a PM também acompanhou sem confrontos manifestações menores, como o ato contra a corrupção e a marcha contra a "cura gay", ambas na quinta-feira na Avenida Paulista. Nos dois casos, o clima era de trégua.

Para o sociólogo Renato Lima, secretário-geral do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, "houve uma mudança explícita de comportamento". "Diria que presenciamos uma mudança de procedimento depois daqueles protestos com muita violência", diz. "A polícia não tem um histórico de aprender a lidar com o diferente, ela precisa ser fortemente pautada para isso." Para Lima, é preciso vigilância da sociedade e da imprensa para que a PM "doutrine o uso da força" em todos os confrontos, e não só em manifestações.

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