Adriano Machado e Rodolfo Buhrer/Reuters
Adriano Machado e Rodolfo Buhrer/Reuters

‘Polarização poderá continuar no próximo governo’, diz sociólogo

Rodrigo Prando diz que próximo presidente pode enfrentar quatro anos de intensa polarização política 

Entrevista com

Rodrigo Prando, sociólogo e professor do Mackenzie

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2018 | 03h00

O sociólogo da Universidade Mackenzie Rodrigo Prando diz que o Brasil que saiu ontem do resultado da eleição em primeiro turno é muito polarizado entre forças petistas e antipetistas. Ele observa que a continuidade dessa polarização nos próximos quatro anos vai depender de como o candidato derrotado vai reagir à aquele que sair vitorioso no segundo turno. “Se todos mantiverem o discurso de palanque depois das eleições, essa polarização pode permanecer, as forças sociais podem ser conflagradas e poderemos ter muitas manifestações tomando as ruas.” A seguir, os principais trechos da entrevista com Prando. 

Leia também a entrevista com o filósofo Roberto Romano, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que afirma que será difícil manter a governabilidade nos próximos 4 anos

Qual é o Brasil que saiu ontem das urnas?

Um Brasil ainda polarizado entre PT e anti-PT. Faço questão de colocar anti-PT, porque não é apenas a força do Jair Bolsonaro (PSL). Vem com muita proeminência a força do antipetismo configurado na figura de Bolsonaro. De qualquer maneira, um Brasil ainda dividido.

Como o senhor vê o rearranjo político para o segundo turno das eleições presidenciais?

Vamos ver como vai acontecer a procura dos derrotados. Ou seja, há uma necessidade daquele que vai para o segundo turno de acenar para os que ficaram no primeiro turno. Isso não significa que os derrotados ao declararem apoio a um candidato seus eleitores vão seguir aquele candidato. É muito provável que votos de Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede) migrem diretamente para Fernando Haddad (PT) ou uma parte disso. A mesma coisa de outros candidatos em relação a Bolsonaro. Vai depender muito de uma costura que já começou a ser realizada antes do fim do primeiro turno. Ou seja: tem de esperar para saber como os candidatos derrotados vão render apoio e a quem e como os seus eleitores vão entender isso e seguir ou não essa indicação.

Como o senhor vê a governabilidade do País nos próximos quatro anos?

As forças políticas e as forças sociais vão ter de dialogar. Como saímos de uma campanha, inclusive com episódio de violência física, há necessidade de as lideranças políticas e até mesmo das forças sociais conclamarem a população para superar esse período eleitoral, amainar esse ânimo muito acirrado e pensar em superar uma crise. Quem sair vitorioso terá de dialogar com responsabilidade, sem colocar brasileiro contra brasileiro. Se conseguir, será o grande passo para a governabilidade.

O senhor acha que essa polarização vai continuar no próximo governo?

Vai depender de como o derrotado reagirá ao vitorioso, se reconhecerá a legitimidade do pleito. As duas candidaturas que vão para o segundo turno já deixaram claro, por exemplo, por parte do PT, que uma eleição sem Lula era fraude. Se o PT for derrotado de novo, isso vai ganhar a cena porque se fosse com Lula o resultado poderia ser outro. Por outro lado, Bolsonaro já disse que reconheceria a vitória e nunca a sua derrota. Se todos mantiverem esse discurso de palanque depois das eleições, essa polarização pode permanecer e as forças sociais podem ser conflagradas. Poderemos ter muitas manifestações tomando as ruas.

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