Polarização estimula intolerância

ONG afirma que denúncias envolvendo racismo, homofobia e xenofobia crescem na campanha; relações pessoais entram em crise

O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2014 | 16h13

Edgar Maciel - O Estado de S. Paulo

As eleições de 2014 ficarão marcadas na história da política brasileira não só pelo engajamento, mas também pela intolerância e pelo discurso do ódio.

As redes sociais foram palco de combates violentos entre militantes e apoiadores das candidaturas de Dilma Rousseff e Aécio Neves. A intensidade das discussões na internet sobre as eleições fizeram aumentar em 95% o número de denúncias de conteúdos relacionados a racismo, homofobia, xenofobia, neonazismo e intolerância religiosa.

Entre 1.º de julho e 21 de outubro foram registradas 10.609 ocorrências na Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, uma rede de denúncias anônimas contra os direitos humanos. As reclamações foram recebidas pela ONG Safernet. Segundo o levantamento obtido pelo Estado, no mesmo período do ano passado foram feitas 5.416 denúncias.

No começo da campanha, o humor e a sátira dominavam os comentários dos primeiros debates eleitorais. No primeiro confronto, realizado no dia 26 de agosto na Band, os candidatos derrotados Eduardo Jorge (PV) e Luciana Genro (PSOL) foram os campeões de repercussão e comentários.

Mas foi outro nanico, Levy Fidelix (PRTB), que gerou revolta na internet. No debate da Record, no dia 28 de setembro, declarou que "aparelho excretor não reproduz" e destilou diversos ataques contra os homossexuais. A reação foi imediata. As palavras "Levy" e "aparelho excretor" foram parar nos trending topics do Twitter brasileiro. Poucos minutos depois, a hashtag "LevyVocêÉNojento" girou um dos assuntos mais comentados.

A vitória de Dilma no 1.º turno da eleição deu início a um surto de mensagens preconceituosas contra os nordestinos. 

Diversas comunidades foram criadas no Facebook culpando os moradores do Nordeste - onde a petista teve o maior número de votos no Brasil - pela vitória do PT. "70% de votos para Dilma no Nordeste! Médicos do Nordeste causem um holocausto por aí", estava escrito em um perfil no Twitter. "Alguém separa o Nordeste desse país, por favor", dizia outra mensagem de um internauta.

Brigas. Durante a campanha do 2.º turno, o clima de confronto dos candidatos ao Planalto expôs mais do que um País dividido entre petistas e tucanos. As ruas e a internet foram tomadas por xingamentos e agressões entre eleitores.

Os irmãos Gabriella Gonzalles, 22, e Pedro Gonzalles, 37, moram em São Bernardo do Campo, no Grande ABC, no mesmo prédio, e estão sem dar um "bom dia" há uma semana. Ela, vota no PT. Ele, tucano nato, vai digitar 45 neste domingo. "Meu irmão não levou meu voto no PT numa boa. Se sentiu ofendido e partiu pra agressão pessoal. Começamos uma guerra familiar", contou. "Pra mim quem vota no PT é tão corrupto quanto a Dilma", rebateu Pedro.

Na última semana, Gabriella intensificou as postagens nas redes sociais a favor de Dilma e recebeu ameaças do irmão mais velho. "Ele me ligou gritando e exigiu que eu parasse com os posts. Ficou extremamente raivoso", contou. "Disse que era isso ou deixávamos de ser irmãos pra sempre", afirmou Pedro.

Depois da briga, ambos se bloquearam no Whatsapp, Facebook e Twitter. Um "bom dia" virou artigo raro e os almoços em família foram cancelados. "Só espero que essas eleições acabem logo, mas tenho certeza que se a Dilma ganhar nossa relação vai ficar ruim por um bom tempo", aposta Gabriella

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.