PMDB retoma força de época da Constituinte

Com Alves e Renan no comando do Congresso e Temer na vice, partido detém os três postos da linha sucessória da Presidência

JOÃO DOMINGOS / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2013 | 02h05

Em menos de quinze dias o PMDB vai acumular um poder político que só teve durante a Assembleia Constituinte (1987/88), quando dominou o Executivo e o Legislativo e elegeu 22 dos 23 governadores que tomaram posse em 15 de março de 1987. A partir do mês que vem, o partido será o dono dos três postos da linha sucessória da presidente Dilma Rousseff: vice-presidente da República, presidente da Câmara e presidente do Senado.

"Nós nos preparamos para isso. Apesar de sermos o mais antigo partido em atividade, continuamos muito competitivos", disse o presidente do PMDB, senador Valdir Raupp (RO). "Queremos repetir a chapa presidencial em 2014 e, em seguida, preparar um candidato próprio à Presidência para 2018", afirmou Raupp. Ele disse ainda que a aliança firmada com o PT desde o primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003/2006) foi coroada de êxito e permitiu ao PMDB voltar ao Palácio do Planalto, com Michel Temer como vice de Dilma Rousseff.

Para o cientista político Antonio Augusto de Queiroz, do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), o fortalecimento do PMDB obrigará a presidente Dilma Rousseff a mudar radicalmente sua forma de conviver com o Congresso nos dois últimos anos de seu governo. "Ou a presidente resolve de vez esse impasse em relação à convivência com o Congresso ou passará a ser derrotada seguidamente".

Para ele, Dilma tem duas saídas para evitar o desastre na relação com o Legislativo na segunda metade de seu governo. Ou assume de vez a coordenação política, passando a negociar diretamente com os parlamentares, e a eles fazendo concessões seguidas, ou delega a função para alguém que tenha competência e poder para isso. Não pode é continuar do jeito que está, em que a coordenação é frouxa, analisa o cientista político.

Para o assessor do Diap - acostumado a defender interesses de sindicatos no Congresso desde a Constituinte -, não dá para comparar as atuais presidências do Senado e da Câmara com as que virão a partir do mês que vem. "O senador José Sarney deve muito ao PT, que ajudou a eleger sua filha Roseana governadora do Maranhão, que ficou do seu lado quando ele passou pela crise dos atos secretos, que sempre lhe deu apoio. Ele nunca iria prejudicar a presidente. Tornou-se até seu conselheiro."

Não é o caso de Renan Calheiros (PMDB-AL), favorito a suceder Sarney. "Apesar de Renan também dever gratidão ao PT, que o protegeu quando teve de responder a processo no Conselho de Ética por causa da suspeita de que tinha a pensão de uma filha paga por uma empreiteira, ele é muito mais independente. Não deixa uma desfeita sem resposta. Já impôs uma série de derrotas ao governo à frente da liderança do PMDB. A presidente precisa se lembrar disso."

A mesma mudança poderá ocorrer na Câmara, acredita o cientista político. "Estavam errados os que disseram que Marco Maia foi um entrave para a presidente Dilma. Ele fez tudo o que a presidente quis, adiou votação, sentou em cima de outros. Cadê a votação do fim do fator previdenciário, da Emenda 29? Marco Maia é petista histórico e não prejudicaria o governo de seu partido."

Em relação a Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), ele dará muito trabalho a Dilma, previu Queiroz. "Alves não tem nenhum comprometimento com o Planalto. Foi ele quem comandou a reação dos ruralistas na derrota do governo durante a votação do Código Florestal."

O futuro líder do PMDB na Câmara - que vai substituir justamente Henrique Alves - também é candidato a dar trabalho. Há restrições muito fortes da presidente Dilma Rousseff ao nome do deputado Eduardo Cunha (RJ), que aparece como favorito na disputa pelo cargo.

Dilma disse a vários interlocutores que não gostaria de ver Cunha como líder da bancada do PMDB na Câmara. Mas Cunha é apoiado pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes. Os outros dois candidatos a líder - Sandro Mabel (GO) e Osmar Terra (RS) - também não agradam ao Planalto.

Na avaliação do Palácio do Planalto, o único fato que move o apoio do governador Sérgio Cabral e de Paes a Cunha é o compromisso do deputado de conseguir votos para manter o veto de Dilma à nova distribuição dos royalties do petróleo. E esse compromisso poderia ser também o fator que levaria ao desgaste de Cunha, sonham os petistas. Porque, depois da atuação tão firme que teve na disputa pelos royalties, pode ter se desgastado com peemedebistas de outros Estados. E estes poderiam derrotá-lo na eleição para a liderança. Mas, admitem os petistas, esse é mais um desejo do que uma realidade palpável.

Petistas. Analistas preveem também dificuldades para a presidente Dilma na relação com o próprio PT no Congresso. A tendência majoritária do partido, a Construindo um Novo Brasil (CNB), à qual pertencem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-ministros José Dirceu, venceu a disputa para todos os principais postos de comando da sigla na Câmara e no Senado. Pertencem a ela os novos líderes na Câmara, José Guimarães (CE), e no Senado, Wellington Dias (PI), além dos futuros vice-presidentes da Câmara, André Vargas (PR), e do Senado, Jorge Viana (AC). Essa é a tendência que mais cobra da presidente da República investimentos fortes e combate à inflação.

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