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Pluralidade desconexa

O debate sobre o Mais Médicos nas redes sociais é um Fla-Flu de vôlei. Os flamenguistas ficam de um lado da rede, e os tricolores do outro. Não se tocam. Não se misturam. Cada um na sua torcida e com coro próprio. Repetem-se uns aos outros, sem atravessar a fronteira para o território adversário. Não há exatamente troca ideias. É um monólogo coletivo.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2013 | 02h07

São os laços que caracterizam tanto a comunidade flamenguista quanto a fluminense. São alianças formadas por interesses ou pontos de vista comuns. Não necessariamente seus componentes dividem a mesma origem social ou geográfica. Por isso essas redes são temáticas e flexíveis, não são estruturais.

Cada lado tem seus próprios "hubs", os nós mais importantes, de onde parte e para onde converge o fluxo de informação. Esses "hubs" seriam outros se o tema da pesquisa fosse, por exemplo, os protestos de rua em vez do Mais Médicos.

É o que mostra o mapa construído, a pedido do Estadão Dados, pelo Labic.net (Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da Universidade Federal do Espírito Santo) com tudo o que foi publicado no Twitter com a expressão "Mais Médicos" entre 13 de agosto e 3 de setembro. São dezenas de milhares de tuítes, escritos ou retransmitidos por milhares de usuários.

Para dar sentido a essa massa de dados, os pesquisadores construíram um mapa de relações, onde cada usuário se liga a outro toda vez que cita-o de alguma maneira: seja "retuitando" uma mensagem que o outro publicou, comentando-a ou interagindo no que poderia ser chamado de uma conversa entre ambos.

O mapa é dominado por duas manchas compactas de pontos muito inter-relacionados. Elas ocupam lados opostos do mapa. Uma está pintada por pontos azuis, e a outra por pontos vermelhos. As manchas são homogêneas: seus pontos tendem a se relacionar quase que exclusivamente entre si. A comunicação com pontos fora de cada uma das redes existe, mas é excepcional.

Pintados aleatoriamente de azul, os usuários que formam a maior dessas comunidades são, em geral, a favor do Mais Médicos. O ponto com maior centralidade desse grupo é o Ministério da Saúde (@minsaude). Ele se conecta a 566 usuários, quase todos azuis, que ajudam a propagar mensagens a favor do programa. Há outros "hubs" azuis, muitos deles blogueiros pró-governo.

A mancha vermelha, contra o Mais Médicos, não tem um "hub" dominante, mas vários de menor alcance que, juntos, formam uma rede extensa. Os perfis são variados. Pode ser o do deputado oposicionista Ronaldo Caiado (@deputadocaiado), conectado a 194 usuários, ou o do Conselho Federal de Medicina (@medicina_cfm), com 148 conexões.

Em ambos os lados, usuários sem compromisso com um dos lados podem ter papel central. Basta que uma mensagem sua tenha tido repercussão em uma das comunidades.

O resultado mostrado pelo mapa é que não há propriamente um debate. A maior parte do fluxo de mensagens ocorre dentro da rede azul ou da rede vermelha. Isso acaba por reforçar os pontos de vista de cada um. Há pluralidade, mas desconexa.

Os únicos que conseguem furar o bloqueio e passar a bola de um lado para o outro são os veículos da chamada velha mídia, principalmente jornais. O perfil do Estado (@estadao) teve a maior "autoridade": suas mensagens sobre Mais Médicos foram retransmitidas ou comentadas por 1.541 usuários, tanto do lado vermelho quanto do azul - e de outras cores. Mas não há engajamento, não há "conversa" com os usuários.

É o que o coordenador do Labic.net, Fabio Malini, chama de "autoridade sem centralidade". A velha mídia é muito mencionada, mas não tem capacidade de mobilização. As reportagens servem de matéria prima para a discussão, são citadas de um lado ou outro, cada um interpretando seu significado de acordo com seu viés. Melhor assim.

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