Planalto procura se distanciar de negócio Delta/J&F

Governo avalia que ligação com construtora investigada na CPI por corrupção colocaria em risco imagem da presidente Dilma

DAVID FRIEDLANDER, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2012 | 03h09

O governo tenta manter distância da operação de venda da construtora Delta para a holding J&F. A avaliação dentro do Palácio do Planalto é que se trata de um campo minado. De um lado, a Delta sofre uma série de investigações por suposto envolvimento em corrupção. Na outra ponta está a J&F, dona do Frigorífico JBS, que teve crescimento espetacular durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e tem como sócio o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Por causa dessa mistura, a presidente Dilma Rousseff não quer ter sua imagem associada ao negócio, confirmado oficialmente na quarta-feira. Assessores do Planalto afirmam: Dilma não foi consultada antes da operação e o governo não deu garantias de que manteria as obras tocadas pela Delta.

Além disso, dizem que não haverá interferência na auditoria que a Controladoria-Geral da União (CGU) faz nos contratos da Delta e que podem levar a empresa a ser considerada inidônea. Se isso acontecer, a construtora perde os contratos com o setor público. A Delta também é investigada pela Polícia Federal e está no centro da CPI do Cachoeira - que investiga um esquema de corrupção comandado pelo contraventor Carlinhos Cachoeira.

"Tudo o que o governo quer é ficar longe da CPI", diz uma fonte graduada do governo, que acompanha o episódio. "Como é que a gente ia dar aval para colocar uma empresa enrolada em investigações que ninguém sabe onde vão dar nas mãos de outra que tem ligação com o BNDES? Contraria a imagem que a presidente construiu até agora."

Por meio de sua assessoria de imprensa, a J&F afirmou que "não se trata de um assunto político", é "uma negociação privada" e por isso "não há necessidade de consultar o governo". A empresa argumenta ainda que "não espera nenhum benefício do governo". Fontes do lado do JBS, no entanto, dizem que o governo foi informado do negócio antes que ele fosse acertado - até porque é o maior cliente da construtora, uma das mais atuantes no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

No mercado, especula-se que ao assumir a Delta e não deixar as obras do PAC atrasarem, a J&F estaria fazendo um favor ao governo e retribuindo todo o apoio que o JBS recebeu do BNDES nos últimos anos. Mas, do jeito que foi montada, a compra da Delta é uma operação de risco controlado para a J&F.

A J&F vai assumir a construtora sem pagar nada agora. A empresa vai passar por uma auditoria para avaliação do preço e, lá na frente, se der tudo certo e a operação for rentável, o ex-dono da Delta, Fernando Cavendish, será pago com os dividendos da própria operação.

Principal empresa do grupo J&F, da família Batista, o JBS transformou-se no maior frigorífico do mundo a partir de uma política agressiva de aquisição de concorrentes no Brasil e no exterior, com apoio do BNDES. O banco emprestou R$ 1,4 bilhão à empresa entre 2008 e 2011, e nos últimos cinco anos injetou outros R$ 8 bilhões via BNDESpar, seu braço de participações.

De tanto colocar dinheiro na empresa, hoje o banco federal é dono de 31,4% do JBS - que virou símbolo da política de criação dos chamados "campões nacionais" do governo Lula. A partir do sucesso do JBS, a família Batista está espalhando seus negócios para novas áreas. Os Batista estão construindo em Mato Grosso do Sul a Eldorado, apresentada como a maior fábrica de celulose de eucalipto do mundo.

Estatais. O BNDES emprestou mais R$ 2,7 bilhões para esse empreendimento, que ainda tem como sócios os fundos de pensão das estatais Petrobrás (Petros) e Caixa Econômica Federal (Funcef). A J&F ainda tem a Flora, da área de higiene e limpeza, e o banco Original, que em 2011 recebeu R$ 850 milhões do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para comprar o Banco Matone.

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