Planalto censura 'politização' de boatos sobre Bolsa Família e enquadra ministra

Em Pernambuco, a presidente Dilma Rousseff assegura continuidade do programa e diz que boataria do fim de semana, além de ser ‘criminosa’, é ‘desumana’; Maria do Rosário associou episódio à oposição e teve de recuar em post no Twitter

VERA ROSA, TÂNIA MONTEIRO/BRASÍLIA E WILSON TOSTA, ENVIADO ESPECIAL/IPOJUCA (PE), O Estado de S.Paulo

21 Maio 2013 | 02h09

O Palácio do Planalto enquadrou a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, que ontem pela manhã postou mensagem, no Twitter, responsabilizando a oposição pela onda de boatos sobre o fim do Bolsa Família. O governo não quer politizar o assunto, mas a declaração da ministra provocou forte reação de políticos da oposição, especialmente do PSDB e do DEM. Advertida, Rosário recuou e, em novo post, publicado ao fim da tarde, disse "não ter indicação formal sobre a origem dos boatos".

"O compromisso do meu governo com o Bolsa Família é um compromisso forte, profundo e definitivo. Não abriremos mão do Bolsa Família", disse ontem a presidente Dilma Rousseff, em Ipojuca (PE), ao discursar no Estaleiro Atlântico Sul, no início da operação do petroleiro Zumbi dos Palmares.

A superintendência da Polícia Federal em Brasília instaurou inquérito para investigar a origem dos boatos. No fim de semana houve corre-corre nas agências da Caixa Econômica Federal para sacar benefícios em dez Estados diante do boato que o programa social seria extinto (veja abaixo). Ontem ainda houve tumulto e saques em alguns Estados, como na Bahia.

"É algo absurdamente desumano o autor desse boato. Por isso, além de ser desumano, ele é criminoso, por isso nós colocamos a Polícia Federal para descobrir a origem de um boato que tinha por objetivo levar a intranquilidade aos milhões de brasileiros que nos últimos dez anos estão saindo da pobreza extrema", afirmou a presidente, que voltou a criticar previsões pessimistas da oposição.

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, afirmou que a Polícia Federal agirá de forma autônoma, sem "influência política". "Isso é ponto de honra para nós, independentemente de quem sejam os autores." Segundo ele, o diretor-geral da PF, Leandro Daiello, está pessoalmente empenhado no caso.

A PF já sabe que os boatos começaram "na rua" e não na internet, já que o público do Bolsa Família não tem tanto acesso a redes sociais. No sábado, Dilma ficou furiosa e disparou telefonemas a ministros e ao presidente da CEF, Jorge Hereda, pedindo rigor nas investigações.

Bastidores. Em conversas reservadas, petistas associam os boatos sobre o Bolsa Família ao "terrorismo" da pré-campanha de 2014, sugerindo que a oposição esteja por trás da confusão. O governo, porém, quer evitar qualquer acusação pública.

Sem imaginar que provocaria tanta polêmica, a ministra dos Direitos Humanos publicou o primeiro post por volta das 9 horas: "Boatos sobre fim do Bolsa Família deve (sic) ser da central de notícias da oposição. Revela posição ou desejo de quem nunca valorizou a política". O recuo veio horas depois, após a censura do Planalto: "Gente, sobre tweet hj pela manhã, quero dizer que não tenho nenhuma indicação formal da origem de boatos. Singela opinião. Não quero politizar". Rosário disse que encerraria o assunto com tal comentário, mas a oposição quer levá-la ao Congresso. Os tucanos vão apresentar requerimento para convocar Rosário.

"É uma postura imatura de quem tem a ambição de representar o governo. Foi irresponsável tentar atribuir à oposição este factoide", afirmou o vice-líder do PSDB no Senado, Alvaro Dias (PR). Segundo o tucano, a ministra foi "irresponsável" ao tentar fustigar a oposição antes de qualquer conclusão da PF.

O líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes Ferreira (SP), acusou o PT de ter "know-how" de fabricar boatos. "Que central de boatos é essa? E que autoridade tem a ministra, membro do PT, de ser fabricante de boatos", disse Ferreira.

"Não terá sido um ato do próprio governo para se vitimizar?", provocou o presidente do DEM, senador Agripino Maia (RN). O PPS e o MD também criticaram a ministra em nota. / COLABORARAM DÉBORA ÁLVARES, RICARDO BRITO e TIAGO DÉCIMO

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