PF vai rastrear evolução patrimonial da organização

Suspeita de enriquecimento ilícito dos investigados será apurada; em grampo, ex-diretor comenta compra de imóvel de R$ 1,4 milhão

O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2012 | 02h00

A Polícia Federal decidiu abrir investigação sobre enriquecimento ilícito dos integrantes da organização desmantelada pela Operação Porto Seguro. A PF vai rastrear a evolução patrimonial de todos os investigados, inclusive Paulo Rodrigues Vieira, diretor afastado de Hidrologia da Agência Nacional de Águas (ANA), apontado como líder de quadrilha.

Levantamento preliminar, amparado em análise de correspondências eletrônicas e telefonemas interceptados, mostra evolução patrimonial de Paulo Vieira - veículo de luxo, apartamento espaçoso em Brasília, a pujança da faculdade que possui e outros bens.

A PF atribui a ele o papel de líder do "núcleo duro" da organização, integrada pela ex-chefe de gabinete da Presidência da República, Rosemary Noronha. Ele foi indiciado por corrupção ativa, falsidade ideológica, falsificação de documento e quadrilha. Ela por corrupção passiva e tráfico de influência.

Os investigadores suspeitam que parte do patrimônio obtido ilicitamente pode ter sido ocultada ou dissimulada, o que caracteriza lavagem de ativos. Mas eles já têm um conjunto de informações que indicam aquisições de Paulo Vieira.

Um grampo de 27 de maio pegou o ex-diretor falando com Mabrisa, sua irmã. Ele informa que comprou um apartamento duplex, em Brasília, de 202 metros quadrados, equipado com ar condicional, churrasqueira e salão de festas.

O corretor ofereceu o imóvel por R$ 1, 56 milhão. Paulo Vieira disse que estava "caro" e acertou por R$ 1,47 milhão. Estava disposto a fazer o pagamento "em dinheiro", como pedia o proprietário, mas acabou emitindo três cheques - dois pagos ao "coronel Gonçalves", um de R$ 800 mil e outro de R$ 630.750, o terceiro entregue ao corretor, no valor de R$ 44.250.

'Barraca'. "Eu ainda não me mudei, não. Porque a pessoa que me vendeu ainda não saiu, não. Agora... eu comprei um duplex", comenta. "Agora eu posso receber até a fogueteira aqui em casa, né? Porque além de ser duplex é uma cobertura."

"Ah, é gigantesco, então", impressiona-se Mabrisa. "Em cima dá pra montar até barraca. É aqui no plano (piloto) mesmo", diz Vieira, sobre o imóvel situado na Asa Sul. "Agora dá pra montar até barraca em cima da cobertura. Eu comprei de um militar, de um coronel do Exército que foi pro Rio... Tudo nos trinque lá, preto no branco. Então tá tudo organizado. Ele deve sair na semana que vem, vou mandar limpar, ajeitar e eu tô pensando até em botar aquelas piscininhas de criança. É como se fosse um quintal."

Na mesma ligação, Vieira informa à irmã que comprou um apartamento em São Paulo. "Eu já tinha alguns, mas eu comprei agora pra eu morar, entendeu? Pra servir de minha residência aí. É ali do lado da Avenida Pacaembu. Nas proximidades da PUC. Esse condomínio é bem cuidado, tem uma piscinona, em cima da piscina você enxerga a cidade assim... Como ele está em cima do morro, aquela região é montanhosa, né. Você enxerga a cidade assim de quem tá na piscina."

Em outro contato, Vieira diz à mulher que fez uma aplicação de R$ 1,25 milhão no Banco do Brasil. Dono da Faculdade de Ciências Humanas de Cruzeiro (SP), ele também comprou uma Range Rover Sport SE preta, modelo 2012, que a PF calcula valer R$ 300 mil.

"Paulo (Vieira) está surpreso, estarrecido com a acusação", reage o criminalista Pierpaolo Bottini, advogado de defesa. "Ele nunca foi chefe de quadrilha e nega categoricamente que tenha pago propina de R$ 300 mil a Cyonil Borges (analista do Tribunal de Contas da União). É no mínimo estranho que alguém que receba um dinheiro supostamente de corrupção não procure a polícia e queira fazer uma investigação por conta própria".

Pierpaolo afirma que Vieira, então na Controladoria Geral da União (CGU), e Cyonil fizeram curso de formação juntos. / FAUSTO MACEDO E BRUNO BOGHOSSIAN

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.