PF prende grupo que espionou líder no Senado e Kassab

Eduardo Braga, prefeito, um ex-ministro e desembargadores de SP e MS foram alvo de um esquema que vendia dados sigilosos

Fausto Macedo e Fernando Gallo, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2012 | 02h03

SÃO PAULO - O senador Eduardo Braga (PMDB-AM), líder do Governo no Senado, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), o ex-ministro da Previdência Social, Carlos Eduardo Gabas, estão entre os alvos de arapongas presos na última segunda-feira, 26, pela Operação Durkheim, missão da Polícia Federal que mobilizou 400 agentes e delegados para cumprimento de 27 prisões e 87 mandados de buscas. Relatório de 2.194 páginas da Inteligência da PF mostra o alcance da rede de espionagem analisando e-mails da organização criminosa que contêm cópias de declarações de Braga, exercício 2012, e de Gabas (2011), além de extratos telefônicos com histórico de chamadas de Kassab nos meses de maio e junho.

A PF identificou 180 vítimas dos arapongas que adquiriam informações protegidas pelo sigilo em órgãos públicos e operadoras de telefonia e revendiam a empresários e escritórios de advocacia. Também foram alvo da arapongagem os desembargadores Luiz Fernando Salles Rossi, do Tribunal de Justiça de São Paulo, e Júlio Roberto Siqueira Cardoso (TJ-MS) - em poder da quadrilha, a PF achou cópias da declaração de IR de Rossi e de contas telefônicas de Cardoso.

O líder da trama da espionagem, informa a PF no inquérito 004/2011, chama-se Itamar Ferreira Damião, de 54 anos, mineiro de Canaã, eleito em outubro vice-prefeito de Nazaré Paulista (SP) pelo PSC. Veterano araponga de São Paulo, especialista em bisbilhotagens, ele atende pelo apelido de Pequeno. Tem patrimônio declarado de R$ 3,35 milhões. Foi preso.

Um e-mail entre dois investigados - Luiz Antônio Santos, o Tony, e Alex Roque Lima dos Santos -, no dia 25 de julho, contém extrato do IR de Eduardo Braga que traz os valores por ele recebido em 2011 como senador e como beneficiário da Amazonprev: R$ 293,954,43.

A PF anotou: "Mostra todo destemor dos investigados pela autoridade do Estado e a certeza que têm na impunidade das condutas criminosas que praticam."

A organização vasculhou a vida de Braga no Infoseg, cadastro secreto do Ministério da Justiça que contém dados pessoais de todo cidadão brasileiro.

Na troca de mensagens, um investigado escreveu, em fevereiro: "Falei com o cliente agora sobre o min. (Carlos Gabas). Ele disse que estão interessados em coisas envolvendo ele e o caso Bancoop. Pelo que vi no Google, faz quase 20 anos."

A organização estava de posse de volume com 3.500 páginas de extratos telefônicos do Banco Itaú e fez circular dados da linha de Kassab. A abertura dos e-mails de Pequeno revela mensagem de Vanda Rodrigues da Cunha Rodrigues, detetive particular, que cobra dele R$ 1,7 mil sob alegação de que havia feito depósito nesse valor. Vanda anexa declaração de ajuste anual ao Fisco do desembargador Rossi.

"Como se isso não bastasse, no dia 7 de agosto de 2012, Hélio Cardoso da Silva (araponga) e Itamar violaram o direito constitucional à privacidade do prefeito Gilberto Kassab", assinala a da PF. "Nesse dia, eles trocaram e-mails que continham os extratos telefônicos do prefeito."

Na tela dos arapongas estava cópia da fatura do telefone de Kassab, no valor de R$ 1.152,59, com data de vencimento de 10 de agosto e conta de outra operadora, vencida no débito automático a 7 de agosto, de R$ 353,29. "Hélio relatou a Itamar o medo do fornecedor das informações por causa de se tratar do Prefeito de São Paulo", diz a PF.

Em São Paulo, três bancas de advocacia foram inspecionadas. Um alvo é o escritório da advogada Priscila Correa da Fonseca - doutora pela Faculdade de Direito da USP, professora doutora de Direito Comercial e especializada em Direito de Família e Sucessões. A PF fez buscas na residência de Priscila, no Morumbi.

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