Pezão tem de adaptar campanha a Crivella

Pezão tem de adaptar campanha a Crivella

Segundo pesquisa do Ibope, Pezão tem 56% dos votos válidos contra 44% de Crivella

Wilson Tosta, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2014 | 19h41

RIO - Em 5 de outubro, dia do 1.° turno, os coordenadores da campanha do governador do Rio à reeleição, Luiz Fernando Pezão (PMDB), não duvidavam que o adversário dele no 2.º turno seria Anthony Garotinho (PR). Era o cenário ideal para o partido. Em todas as pesquisas, a alta rejeição do ex-governador indicava uma disputa tranquila para os governistas, com vitória quase certa de Pezão. A campanha de desconstrução do postulante do PR, fortemente calcada em seu período no governo, estava pronta. 

A abertura das urnas, porém, trouxe uma surpresa. Com 19,73% da votação válida, Garotinho ficou em terceiro. Foi superado pelo senador Marcelo Crivella (PRB), com 20,26%, contra 40,56% de Pezão. Os dois disputam hoje o 2.º turno. Os peemedebistas refizeram planos. Pediram neutralidade ao candidato derrotado do PT, Lindbergh Farias. Não conseguiram - o petista apoia Crivella -, mas convenceram o PT nacional a impedir o diretório local de apoiar o PRB. E passaram, então, a tentar desconstruir Crivella, lembrando sua condição de bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). 

Foi uma dura ofensiva. Uma das armas usadas foi um vídeo em que o adversário aparece pregando. “Meus irmãos, vocês não sabem o que é viver em um país longe da família (...) e você passar um cheque sem fundos”, diz, entre risos, Crivella no registro em que lembra seu tempo na África. “Liguei um dia para o bispo Macedo, ele falou: ‘Ué. Você está me ligando para quê? Você não é missionário? Quando a gente precisa de dinheiro, a gente pesca o peixe, que o peixe na boca traz a moeda. Ganhe a alma que você vai ganhar a oferta’.” Neste momento, um letreiro pergunta no vídeo: “Você conhece Marcelo Crivella? Conhece mesmo?”. 

A equipe de Crivella alega que o vídeo foi editado fora do contexto. Ainda assim, essa foi a linha inicial da campanha de Pezão. No primeiro debate do 2.º turno, promovido pela Ordem dos Advogados do Brasil, revistas Veja e Veja Rio e Universidade Estácio de Sá, Pezão apresentou-se com inédita agressividade. 

“Toma cuidado com essa convivência com o Garotinho. Ele vai fazer o senhor mentir também”, disse Pezão a Crivella, chamando-o de “senador bispo Crivella” e referindo-se à aliança do adversário com o ex-candidato do PR. 

A campanha do PRB insistiu em relacionar Pezão ao ex-governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), que renunciou ao cargo e se escondeu para não contaminar o seu então vice Pezão com sua baixa popularidade. 

Para rebater o discurso de Pezão, de continuidade da gestão, passou a citar afirmações do governador e confrontá-las com dados oficiais divergentes. “Quem está mentindo? Pezão ou o IBGE?”, questionava um locutor. O candidato também reforçou uma postura do 1.º turno, de tentar se desvincular de posições fundamentalistas. “Sou evangélico, mas não misturo política com religião. Sou hétero, mas respeito quem não é”, diz Crivella, em um vídeo em que caminha pela Praça XV. 

‘Nerso da Capitinga’. Para o cientista político Ricardo Ismael, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), os dois candidatos mudaram suas estratégias no 2.º turno. No primeiro, Pezão, segundo ele, priorizou dissociar-se de Cabral e se tornar conhecido. Seu programa de televisão o apresentava como se contasse histórias, com uma estética agradável e cenas rurais. Elas lhe valeram o apelido de “Nerso da Capitinga”. 

No início do 2.º turno, a postura mudou. O PMDB começou uma forte campanha negativa contra a surpresa Crivella. Já o candidato do PRB, que tivera postura mais cordata, assumiu o comportamento agressivo que marcou sua participação no último debate do 1.º turno, na Rede Globo. 

“Crivella tinha, no 1.º turno, uma rejeição baixa”, diz Ismael. A postura de Pezão, mais dura, tinha o objetivo de impedi-lo de subir. “Com dez pontos de vantagem, agora os peemedebistas tentam administrar isso.” 

Ismael nota que o programa do governador retomou a “narrativa tranquila” do 1.º turno e ressalta que a tentativa do candidato do PRB de se livrar da pecha de excessivamente religioso tem problemas. Mas avisa: “Crivella não está morto”.

Pesquisa. De acordo com a pesquisa do Ibope, divulgada neste sábado, 25, o atual governador, Luiz Fernando Pezão mantém a liderança e será reeleito. Ele aparece com 56% do total de votos válidos. Já o oponente, Marcelo Crivella (PRB) tem 44% dos votos válidos. 

O levantamento ocorreu entre a quinta-feira e hoje, e ouviu 2002 eleitores. A margem de erro é de 2% e o índice de confiança é de 95%. A pesquisa foi encomendada pela TV Globo e registrada no Tribunal Regional Eleitoral sobre o número de 00077/2014.

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