Petistas vão hoje às urnas pressionados a renovar discurso para reeleição de Dilma

Atual presidente do partido, Rui Falcão deve ser reconduzido ao cargo para lidar com o desafio de elaborar um novo programa que dialogue com a chamada nova classe média; filiados vão escolher também novos comandos estaduais e municipais

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2013 | 02h11

BRASÍLIA - O PT realiza hoje suas eleições internas e dá aquele que é considerado o primeiro passo para preparar a campanha à reeleição de Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto, em 2014. O atual presidente do partido, Rui Falcão, deverá ser reconduzido ao cargo pelos votos dos filiados. O desafio do partido, segundo ministros do governo, será elaborar a partir de agora um programa que vá além do discurso de combate à miséria, que garantiu duas vitórias a Luiz Inácio Lula da Silva e a eleição de sua sucessora. A meta é criar uma nova agenda, que dialogue diretamente com a chamada nova classe média.

Em conversas reservadas, ministros do governo e dirigentes do PT afirmam que os 11 anos no Palácio do Planalto obrigam o partido a se renovar e a apresentar plataformas que "não olhem só pelo retrovisor" nem representem a mera continuidade de conquistas dos governos Lula e Dilma.

Depois do discurso da superação da miséria, a ideia é contemplar a nova classe emergente não só pelo lado do consumo, mas fortalecendo políticas públicas em educação, saúde, transporte e segurança. A cúpula do PT tem certeza de que essa retórica será "turbinada"por possíveis rivais de Dilma em 2014, como o senador Aécio Neves (PSDB) e a dupla Eduardo Campos-Marina Silva (PSB).

Na prática, porém, não há até agora uma marca forte para Dilma chamar de sua. O lançamento do programa Mais Médicos, criado para levar atendimento a população de áreas distantes do País, é uma resposta à área da saúde, mas ainda não dialoga diretamente com a classe C e os próprios petistas dizem que não pode ser uma ação isolada.

Esse deverá ser um dos temas centrais do 5.º Congresso do PT, encontro em Brasília previsto para meados de dezembro em que integrantes do partido vão discutir questões de fundo, como a vocação "socialista" da legenda, algo que petistas moderados querem ver transformada em ideário "social-democrata".

A eleição interna do PT - que escolherá, além da direção nacional, as direções estaduais e municipais em todo o País - também é um momento em que os integrantes da cúpula aproveitam para fazer críticas aos aliados e cobrar mais espaço no governo.

O receio declarado dos petistas é que a presidente fique refém de pressões dos aliados de "centro-direita" em eventual segundo mandato e, com esse diagnóstico, pretendem disputar os rumos da gestão. Apesar de ver a parceria com PMDB, PR, PP e PTB como um "mal necessário", a dividida corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), majoritária no PT, também engrossa o coro por mais poder na coligação de apoio a Dilma. Atualmente, o PMDB comanda cinco dos 39 ministérios e chegou a sugerir a redução do número de pastas para provocar os petistas, que controlam 18.

Desafiantes. Cinco candidatos à presidência do PT desafiam Falcão, defensor da atual política de alianças. Nenhum tem chance de desbancá-lo. Concorrem contra o atual presidente da sigla os deputados Paulo Teixeira (Mensagem ao Partido) e Renato Simões (Militância Socialista), além dos dirigentes Valter Pomar (Articulação de Esquerda), Markus Sokol (O Trabalho) e Serge Goulart (Esquerda Marxista). Dos cerca de 1,7 milhão de filiados, 806 mil têm direito a voto.

O impacto da eleição no PT na reforma ministerial, na campanha de Dilma e na formação dos palanques também dependerá do resultado da disputa nos Estados e do peso que ganhará cada grupo. No Maranhão, por exemplo, a maioria do PT quer se descolar da família Sarney, embora Lula defenda aliança com o candidato escolhido pelo senador peemedebista.

O confronto se repete no Rio de Janeiro, onde o PT defende a candidatura do senador Lindbergh Farias e Lula tenta contornar a situação para não irritar o governador Sérgio Cabral (PMDB), que ameaça retirar o apoio a Dilma caso os petistas não avalizem a campanha de seu afilhado, Luiz Fernando Pezão.

À sombra. Conhecido como "PED", o Processo de Eleição Direta no PT vai escolher cerca de 100 mil dirigentes do partido em todo o País para o período de 2014 a 2018, mas pode ser o último nesse modelo. Denúncias de filiação em massa e abuso do poder econômico marcaram os debates entre os candidatos ao comando do PT em âmbito nacional, estadual e municipal na mesma proporção que as críticas à "privatização" do pré-sal, ao "conservadorismo" do governo Dilma e à falta de interlocução com a presidente.

"Não podemos agir como se fôssemos oposição", diz Falcão. "Aspiramos que o segundo governo da presidente Dilma seja mais realizador e com mudanças mais profundas do que já tivemos nesses dois governos do PT."

Para Renato Simões, secretário de Movimentos Populares, o PT não pode viver à sombra do Planalto. "Por que temos de ser um partido amorfo? Quando há um impasse com o governo, o PT desaparece. Não dá para ser assim."

Para o secretário-geral do PT, Paulo Teixeira, o maior desafio é conseguir mobilizar a população em torno da reforma política. "Além disso, precisamos fazer um adensamento à esquerda no nosso programa e nas nossas alianças", afirma.

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