Celso Junior/AE
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Perillo admite elo de políticos de Goiás com Cachoeira

Governador de GO, tucano defende ex-chefe de gabinete flagrada em grampo com contraventor e diz ter acreditado que ele agia na legalidade

Entrevista com

Christiane Samarco, enviada especial de O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2012 | 03h06

PIRENÓPOLIS (GO) - Nos últimos 17 dias, a República foi sacudida por revelações da Operação Monte Carlo da Polícia Federal, que ligam o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, acusado de comandar uma rede ilegal de jogos, a políticos de Goiás.

Depois do escândalo das gravações que mostraram a relação estreita do senador Demóstenes Torres (sem partido) com Cachoeira, o governador Marconi Perillo (PSDB) não tem dúvidas: "Numa hora como essa não dá para haver hipocrisia. Todos os políticos importantes de Goiás tiveram algum tipo de relação ou de encontro com o Carlos Ramos, como empresário e dono de indústria de medicamentos em Anápolis, que se relacionou durante muito tempo com várias personalidades da sociedade goiana", disse Marconi ao Estado.

Pegos nos grampos da PF em conversa com Cachoeira, sua chefe de gabinete Eliane Pinheiro, e o presidente do Detran, Edvaldo Cardoso, se demitiram na semana passada. O governador admite que conversou com Cachoeira, uma vez, por telefone, e que o recebeu, no palácio do governo, mas enfatiza que falaram de incentivos fiscais.

Recolhido em sua fazenda de Pirenópolis (130 quilômetros ao norte de Goiânia) na Páscoa, o governador tucano contou que, até o estouro do escândalo, não tinha dúvida sobre "a correção" de Demóstenes Torres. Cachoeira está preso desde fevereiro em Mossoró (RN).

O sr. teme que o envolvimento do seu nome lhe prejudique?

Estou muito tranquilo em relação ao que aconteceu. Asseguro que jamais houve qualquer omissão do governo goiano em relação a ilícitos. Falta um tempo para o início da campanha municipal e espero que tudo seja esclarecido até lá. Mas como este é um assunto que está sendo jogado só nas costas de políticos da oposição, pode pairar alguma dúvida. Meu partido me conhece, e conhece meu procedimento ao longo de toda minha vida pública. Mesmo assim, alguns devem ter algum tipo de dúvida, afinal é um assunto que ganhou a imprensa nacional.

O PSDB estranhou o fato de sua chefe de gabinete ter sido flagrada em conversas telefônicas com o Cachoeira. Como ela foi parar em uma função tão próxima do governador?

Fiquei tão assustado quanto meus companheiros. Eliane trabalhou com a deputada Lídia Quinan, depois com Fernando Cunha na secretaria de Governo. No governo anterior, ela passou dois meses rodando o Estado inteiro, me ajudando, com um grupo de oito amigos que alugaram uma Kombi e formaram o núcleo voluntário mais aguerrido da campanha. Quando ganhei a eleição, jamais poderia não prestigiar pessoas como ela. Soube dessa relação (com Cachoeira) quando houve o episódio (a operação da PF). Posso afirmar que é pessoa corretíssima, que não tem qualquer ligação com jogo, caça-níquel, ilegalidade. Nenhum dos citados, ligados a mim, foi relacionado a ilícitos e contravenção. Ela pediu demissão, mas me vejo com dever defendê-la.

Se o Cachoeira a avisa de uma operação da PF em prefeituras do interior goiano, como em Águas Lindas, a informação era do seu interesse e deveria ser passada ao governador?

Jamais. Ela me disse que tinha uma relação de amizade muito forte com o prefeito e a família do prefeito de Águas Lindas. Talvez tenha sido por isto que o empresário a tenha avisado. Mas ela foi muito categórica comigo, dizendo que não tem envolvimento e que nem avisou o prefeito.

O sr. foi adversário do senador Demóstenes Torres e depois virou aliado. Nos últimos tempos, como era essa relação política?

Minha relação com Demóstenes foi uma relação de altos e baixos. O conheci pessoalmente em 1998. Ele nem havia votado em mim para governador, mas achava que era importante trazer alguém do Ministério Público para ser o secretário de Segurança, e ele tinha sido duas vezes procurador-geral de Justiça. Era muito novo, queria formar um secretariado eclético e acima de qualquer suspeita em credibilidade e competência.

Mas depois romperam.

O ápice desse rompimento se deu em 2006, quando houve uma disputa muito dura e ele estava contra o candidato que eu apoiava, Maguito Vilela (PMDB). Chegando ao Senado, em 2007, tive uma conversa franca com ele e estabelecemos um modo de convivência. Não tinha dúvida sobre a correção dele, até porque foi relator e autor de mais de mil projetos importantes para o País, principalmente na área de combate ao crime, modernização dos Códigos de Processo Civil e Penal. E esta relação evoluiu até chegarmos à aliança de 2010. O Demóstenes tinha uma popularidade muito grande e foi muito importante para nossa vitória, especialmente no segundo turno. Ele me ajudou muito.

O sr. não percebeu a proximidade dele com Cachoeira?

Uma campanha como a que disputamos é tão difícil e corrida que mal dá para conversar. O Demóstenes sempre andava com um carro atrás do meu e fizemos poucos comícios. Sinceramente, não conversávamos sobre esses assuntos. Mas é importante dizer que numa hora como essa não dá para haver hipocrisia. Todos os políticos importantes de Goiás tiveram algum tipo de relação ou de encontro com o Carlos Ramos, como empresário. Ele é dono de indústria de medicamentos em Anápolis, que se relacionou muito tempo com várias personalidades da sociedade goiana.

Sua relação com Cachoeira era de amizade ou apenas política?

Foi uma relação muito esporádica, mas ele sempre foi muito respeitoso. As poucas vezes em que estivemos juntos, ele pediu apenas apoio do governo em áreas em que todos os empresários têm direito, que são os incentivos fiscais para ampliação de empresas e de empregos.

Quem os apresentou?

O conheci há alguns anos, apresentado em uma festa pelo Fernando Cunha, que foi meu secretário de Governo. O filho do Fernando era casado com uma irmã do Cachoeira. Poucas vezes antes das eleições nos avistamos em ocasiões festivas.

O governo de Goiás se empenha no combate ao jogo ilegal?

Desde o ano passado, quando cheguei ao governo, a polícia civil deflagrou mais de 400 operações de apreensão de máquinas de jogos ilegais, entre as quais caça-níqueis. A PM apreendeu nesse período 1.801 máquinas, parte delas já foi destruída e outras estão aguardando decisão judicial para serem destruídas. Eu não jogo, detesto jogo e sempre que posso procuro dissuadir meus amigos de jogarem. Encontrei Cachoeira em uma festa, e em uma conversa informal, ele me revelou que tinha abandonado o jogo, saído da contravenção e que era empresário trabalhando na legalidade.

E o sr. acreditou?

Acreditei. Eu acredito nas boas intenções das pessoas. Sou um homem de boa fé. E ele era um empresário conhecido, bem sucedido, dono de uma indústria grande de medicamentos.

Ele foi recebido pelo sr. no palácio do governo?

Uma vez, para tratarmos de assuntos de interesse da indústria dele, e três vezes em ocasiões festivas ou em jantares.

O sr. trocava telefonemas com Cachoeira? Há novas gravações? Nunca houve troca de telefonemas. Pode ser que haja uma única conversa, e uma única vez também, no ano passado, quando eu liguei no aniversário dele para cumprimentá-lo. Eu ligo todos os dias para algumas dezenas de pessoas cumprimentando pelo aniversário, com muito carinho. São empresários, políticos, bispos, pastores. Isso é uma coisa que eu faço cotidianamente. Fora isso, nunca houve motivos para ligações.

Quantas vezes o sr. o recebeu no palácio do governo?

Ele solicitou uma vez uma audiência formal e, depois de algum tempo, de acordo com minha agenda, que é muito carregada, eu o recebi para tratar de incentivos fiscais à indústria de medicamentos que ele tem em Anápolis. Ele pediu e depois reclamou que não havia sido atendido e pediu mais uma conversa. O recebi uma segunda vez. Depois ainda tive uma conversa com ele em encontros festivos.

Alguma vez ele foi à sua casa?

Não. Nem eu à casa dele. O que houve foi a coincidência de eu ter vendido minha casa e ele ter sido preso na casa que foi minha.

Quem intermediou o negócio?

Foi o Wladimir Garcês. Foi presidente da Câmara de Goiânia e há muitos anos participa da política de Goiás. Depois trabalhou com Jovair (Arantes, ex-tucano hoje líder do PTB na Câmara), e com Henrique Meirelles. Eu queria vender minha casa, porque eu estava pagando empréstimo à Caixa com o imóvel fechado, e ele queria comprar. Próximo da escritura ele disse que não havia conseguido dinheiro, mas que havia outro comprador, dono da faculdade Padrão aqui em Goiás. Depois disso, nunca mais ouvi falar da casa. Só quando houve a prisão.

O sr. teme vingança do PT por ter dito que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha conhecimento do mensalão?

Sinceramente espero que isto não povoe a cabeça do Lula e de pessoas ligadas a ele. Um homem que foi presidente da República duas vezes e deixou o governo muito bem avaliado não pode estar preso a sentimentos menores.

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