Perfil social define redutos

Mapas de votação que se superpõem mostram quais candidatos disputam o mesmo eleitorado

DANIEL BRAMATTI, AMANDA ROSSI, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h13

Sucessivos confrontos eleitorais em São Paulo revelaram uma cidade polarizada: candidatos do PSDB são mais fortes nas áreas mais ricas, enquanto os do PT são imbatíveis na periferia. Mas eles não são os únicos que têm eleitorado concentrado geograficamente.

O histórico de votação de Celso Russomanno (PRB), Gabriel Chalita (PMDB) e Soninha Francine (PPS) nas eleições de 2008 e 2010 revela que seus redutos se distribuem de acordo com o perfil social dos moradores. O primeiro colheu seus melhores resultados em bairros de baixa renda nas zonas sul, leste e norte, enquanto os dois últimos se destacaram no centro expandido.

Os mapas publicados nesta página mostram as zonas eleitorais onde os principais candidatos à Prefeitura tiveram votação acima e abaixo de suas médias na cidade, ao disputar distintos cargos. Um deles traz dados do PT nas últimas três eleições, já que o candidato do partido, Fernando Haddad, ainda não foi testado pelas urnas.

Há uma sobreposição de redutos nos mapas de votos de Russomanno e do PT, e o mesmo ocorre com os de Chalita, Soninha e José Serra (PSDB). Em termos geográficos, é como se dois candidatos disputassem um eleitorado e três brigassem por outro.

O que diferencia esses eleitorados, além da geografia, é a posição na escala de rendimentos. Os bairros onde Serra e Chalita foram melhor em 2010, como candidatos a presidente e a deputado, têm renda média mensal superior a R$ 4.900 por domicílio. Onde Russomanno e o PT se destacaram, esse indicador não chega à metade disso.

O candidato do PRB concorreu a governador em 2010 - na época, pelo PP. Ficou com quase 7% dos votos válidos na capital. Seu pior desempenho foi registrado na zona eleitoral Jardim Paulista (2%).

Não por coincidência, foi no mesmo Jardim Paulista que o PT obteve sua menor média de votos nas últimas três eleições majoritárias, e onde Serra atingiu seu maior porcentual como candidato a presidente.

Chalita, que concorreu a deputado federal em 2010, foi o quinto mais votado na cidade. Das 30 zonas eleitorais onde teve performance acima da média, 25 aparecem também entre aquelas em que José Serra teve desempenho destacado no mesmo ano.

Referencial. A regularidade do PT, que ficou em primeiro ou segundo lugar em todas as disputas pela Prefeitura de São Paulo dos últimos 24 anos, fez com que o partido se transformasse em ponto de referência das eleições locais.

A pedido do Estadão Dados, o Ibope delimitou três áreas homogêneas da cidade com base no comportamento do eleitorado em relação ao PT nas últimas três disputas majoritárias - pela Prefeitura, em 2008, e pelo governo estadual e a Presidência, em 2010.

O mapa resultante, exibido na página central deste caderno, mostra uma mancha antipetista no meio da cidade, na qual 72% dos moradores se definem como brancos e onde a renda é mais que o dobro da do restante da capital.

Outra mancha vermelha delimita as áreas pró-PT, nos extremos sul, leste e norte, com renda mais baixa e a maior parte da população preta ou parda. E, entre as duas, existe uma zona volúvel com mais de 800 mil eleitores. Sete zonas eleitorais formam essa área que, a cada eleição, pende para um lado ou outro. Três estão na zona leste (Ermelino Matarazzo, Parque do Carmo e Sapopemba), duas na zona norte (Pirituba e Nossa Senhora do Ó) e outras duas na zona sul (Capela do Socorro e Cidade Ademar).

Geograficamente, elas estão localizadas entre a mancha vermelha pró-PT e a mancha mais clara do centro anti-petista. Na zona sul, fazem a ponte entre Santo Amaro, bairro de renda alta, e Grajaú, de renda baixa. Na zona norte, separam Lapa e Perdizes de Brasilândia e Jaraguá. A leste, estão nas divisas com Guarulhos e Santo André e ao lado do bairro de Itaquera.

Os indicadores sociais da zona volúvel também estão no meio do caminho entre o centro e a periferia. A renda média domiciliar por pessoa medida pelo IBGE em 2010, de R$ 2.734, é 45% menor que o valor registrado na área que vota menos no PT e 43% maior que o total da área petista.

Até o perfil etário dessa zona do meio é intermediário. Ela tem mais jovens que o centro e menos que a periferia. Os pretos ou pardos são 36%, acima dos 25% registrados no centro e abaixo dos 50% dos extremos mais petistas.

Capela do Socorro é exemplo desta faixa de transição. Com 183 mil habitantes e renda média domiciliar per capita de R$ 3.226, a zona eleitoral fica localizada entre a rica Santo Amaro, com renda de R$ 7.570, e o Grajaú, com renda de R$ 1.650. Quatro entre dez de seus moradores são pretos ou pardos, segundo a classificação do IBGE. Em Santo Amaro, a relação é de um para dez. No Grajaú, acima de cinco a cada dez.

Pirituba, na zona norte, também divide áreas contrastantes. Lá vivem 114 mil pessoas, com renda de R$ 3.480 - entre os R$ 6.000 da Lapa, antipetista, e os R$ 1.850 da Brasilândia, petista.

A zona que balança fica mais parecida com a pró-PT quando aponta os principais problemas da cidade. Nas duas áreas, a saúde é considerada o grande nó municipal por 44% das pessoas, segundo pesquisa Ibope. Já na faixa anti-PT, o tema preocupa um pouco menos: 40%. É na segurança pública, segundo maior problema apontado em São Paulo, que as diferenças se acentuam. Na parte da cidade que vota menos no PT, o tema é a preocupação principal de 18% da população.

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