Peemedebista do TO atuaria para esquema

Escutas da PF indicam que, se empossado no Senado, Marcelo Miranda agiria em favor do contraventor

ALFREDO JUNQUEIRA , ENVIADO ESPECIAL / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2012 | 03h05

Eleito senador por Tocantins em 2010, mas impedido de tomar posse por decisão judicial, Marcelo Miranda (PMDB-TO) foi preparado para ser mais um braço da organização liderada por Carlinhos Cachoeira, no Senado. Gravações da Polícia Federal feitas durante a Operação Monte Carlo indicam que, ao lado de Demóstenes Torres (sem partido-GO), Miranda atuaria em favor do interesses do contraventor e da Delta Construções.

Registros de conversas telefônicas feitos no dia 4 de maio de 2011 mostram Miranda chamando Cachoeira de "chefe". O senador eleito diz que o contraventor pode contar com ele e ainda informa: "Tô aí pra somar". Um outro diálogo entre o contraventor e o então diretor da Delta Construções para o Centro-Oeste, Claudio Abreu, revela a euforia deles diante da possibilidade de Miranda tomar posse no Senado.

'Procurador'. "Foi bom demais, né? Você ligou pra ele?", pergunta Cachoeira. "Não. O bom é que eu sei que ele vai ser procurador seu e meu, né?", afirma Abreu. "É bom demais. É um cara bom, viu? Coração bom", conclui Cachoeira. No mesmo dia, Cachoeira liga para Demóstenes para falar sobre Miranda: "O Marcelo Miranda está louquinho para falar com você, para te agradecer. Liga pra ele aí", diz.

Os diálogos ocorreram logo após Miranda sair vitorioso de longa batalha judicial na qual tentou assumir o mandato no Senado. O peemedebista, no entanto, nunca foi empossado. Acusado de abuso de poder econômico e político nas eleições de 2006, quando ganhou a disputa pelo governo do Estado, Miranda foi cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2009 e considerado inelegível por três anos.

Apesar da condenação, o Tribunal Regional Eleitoral do Tocantins (TRE-TO) deferiu o pedido de candidatura de Miranda ao Senado - decisão posteriormente reformada pelo TSE com base na Lei da Ficha Limpa e na Lei Complementar 64/90, que estabelece os casos de inelegibilidade.

Ao analisar o recurso extraordinário de Miranda em maio do ano passado, o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), considerou que o peemedebista não poderia ser enquadrado na Lei da Ficha Limpa.

O entendimento fez com que Miranda, Cachoeira e seu grupo comemorassem, considerando como certa a posse no Senado.

"Parece que o Marcelo (Miranda) virou senador de novo", comentou com o chefe Gleyb Ferreira da Cruz, braço financeiro do grupo de Cachoeira, ao tomar conhecimento da decisão. "Viu, negão, onde eu ponho a mão só dá nome certo, rapaz", respondeu Cachoeira.

Duas semanas depois, no entanto, Fux rejeitou o pedido para que Miranda assumisse o mandato, pois, embora livre da aplicação da Lei da Ficha Limpa, fora mantida a condenação de três anos de inelegibilidade, a partir de 2009, por abuso de poder político e econômico.

O Estado procurou Marcelo Miranda. Um assessor do ex-governador e senador eleito de Tocantins identificado apenas como Alex solicitou que os questionamentos fossem enviados por e-mail. Entretanto, nenhuma resposta foi enviada até o fechamento desta edição.

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