Pedra no caminho

Enquanto uma ala do PT força a mão para que o partido e o governo desde logo tratem o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, como um adversário eleitoral, outro grupo prega paciência.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

02 Abril 2013 | 02h06

Sob o argumento de que a realidade adiante poderá se encarregar de "esvaziar" a ideia de candidatura presidencial e levar Campos a tomar outro rumo.

É também o que pensam políticos do PSDB hoje celebrantes do altar do pernambucano por ele representar a possibilidade de um cisma sério no campo governista.

Esses tucanos e aqueles petistas compartilham do raciocínio de que embora em tese a candidatura de Campos tenha tudo para prosperar no espaço aberto pelo desgaste da dicotomia PT-PSDB, na prática a fragilidade estrutural do PSB criaria para ela um obstáculo intransponível na hora da formação das alianças regionais para sustentar a campanha.

Um número significativo - senão a quase totalidade - de deputados federais do PSB se elegeu sob a égide da união com o PT, vale dizer, o governo. Em 2014 também vão precisar de coligações fortes para se reeleger. E aí, como fazer?

Na visão tucana, a própria base do PSB pode acabar pressionando pela desistência da candidatura presidencial para não pôr em risco o partido. Pode parecer contraditório à primeira vista, considerando que partido que concorre à presidência em princípio "puxa" votos para a formação de bancadas.

Depende, porém, da opção do partido. O PMDB, por exemplo, se mantém influente no Congresso em decorrência da força da "base" regional sempre aliada a governos federais.

Quem argumenta com muita clareza no PT a respeito dessas dificuldades que poderão se apresentar no caminho da trajetória de Eduardo Campos é o governador da Bahia, Jaques Wagner, um dos adeptos da política de boa vizinhança com o PSB.

Em lúcida entrevista ao jornal Valor Econômico do dia 28 de março último, o petista discorre sobre esse e outros assuntos, partindo da premissa de que embora o governador de Pernambuco e o partido dele tenham todo o direito de buscar autonomia e almejar ao poder central, talvez fosse mais prudente por ora levar em conta as condições objetivas.

Para ele, abrir espaço na cena política no comando de um partido é uma coisa. "Montar palanques nos Estados é outro problema. A lógica dos partidos é crescer nos Estados; a lógica de quem está na campanha majoritária é ganhar; e essas duas lógicas nem sempre combinam."

Cita o exemplo de Celso Russomanno (PRB) na eleição municipal de São Paulo, em 2012. "Tinha tudo para ganhar, estava na frente, era outsider na dicotomia PT e PSDB."

Em trecho adiante esmiúça o argumento e esclarece o que pode vir mesmo a ser uma pedra no caminho desta que hoje se apresenta como a novidade no cenário.

"Os deputados federais e estaduais que querem se reeleger dependem de um palanque forte. Se não tiverem a visualização de um palanque forte, não sei se o PSB conseguirá manter a unidade. Tem lugar em que o aliado está doido para que ele (Campos) seja candidato e tem lugar em que é exatamente o contrário: o cara está encaixado numa aliança de governo e prefere não romper isso."

Um dado a constar nas análises que dão como certa e inevitável uma candidatura aparentemente sem espaço para recuo, num mundo (a política) onde já se disse que as circunstâncias mudam ao ritmo das nuvens e nada é definitivo.

A propósito, o zunzum em Brasília detecta sinais de aumento no grau de cautela dos aliados de Campos em relação à candidatura.

Páreo duro. O deputado Marco Feliciano dizer que a Comissão de Direitos Humanos antes era dominada por "Satanás" faz parte do show dele. Ex-presidentes da comissão é que não precisavam levar a sério e reagir ofendidos.

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