PC do B troca fundadores por 'celebridades'

No programa do partido na TV, saem Grabois e Pomar, entram Pagu e Carlos Drummond

Leonencio Nossa / Brasília, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2013 | 02h06

O retoque na maquiagem encobriu marcas centenárias. As mais recentes propagandas na TV do PC do B ignoram seus líderes históricos, como Maurício Grabois (1912-1973) e Pedro Pomar (1913-1976), fundadores da legenda dissidente do PCB, que, em 2013, estariam completando cem anos.

As inserções publicitárias apostam na beleza da deputada gaúcha Manuela D'Ávila e em celebridades do passado, como Carlos Drummond de Andrade, a escritora modernista Pagu e o romancista Jorge Amado, que nunca militaram no partido.

Considerado pelo PC do B, até recentemente, um "oportunista de direita", o líder maior do antigo PCB, Luís Carlos Prestes, é outra das estrelas mostradas na TV. Nos anos 1960, Prestes forçou a saída de Grabois e Pomar do "partidão" - e os dois foram fundar a legenda divergente. Fazem parte hoje do seleto grupo de personagens influentes da esquerda brasileira no século 20. A ausência dos líderes históricos da publicidade oficial mostra a distância cada vez maior de suas famílias com o partido. Para muitas delas, o verdadeiro PC do B morreu no tempo do regime militar.

País 'diferente'. Numa das propagandas na TV, a deputada Manuela sorri enquanto caminha pela calçada de uma grande cidade. Diante da câmera, diz que o PC do B é o partido do socialismo e uma resposta ao capitalismo "ultrapassado". A cantora Lecy Brandão, filiada à legenda, é outra que aparece em uma das inserções. O senador cearense Inácio Arruda apresenta figuras que "sonharam em construir um país diferente" - e aí entram Prestes, a primeira mulher dele, Olga Benário, e as celebridades.

O legado de Grabois e Pomar e temas como a guerrilha do Araguaia - episódio crucial na história do partido - foram empurrados pelo PC do B para blogs e sites na internet. A decisão de ignorar o Araguaia já era esperada. "O PC do B nunca põe o Araguaia na pauta. Nunca mandou um papel de pão com uma mensagem para dizer que é solidário com a nossa dor", afirma Maria Eliana Castro, irmã do guerrilheiro Antonio Teodoro, o Raul, executado pelo Exército em 1974.

Nas últimas duas décadas, a sigla pegou carona em coligações do PT. Em seu revisionismo, deixou de lado sua criação em 1962 e diz ter 91 anos. "PC do B, em mais de 90 anos de história, uma mesma cara, uma mesma história, um mesmo partido", diz, na propaganda, o senador Inácio Arruda.

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