PC do B reclama, 'apanha', mas segue fiel

Ao lado do PT desde as eleições presidenciais de 1989, comunistas têm dúvidas sobre comportamento do aliado no Maranhão e no Acre

JOÃO DOMINGOS / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2013 | 03h20

Único dos partidos a se manter fiel ao PT em todas as eleições desde a redemocratização, o PC do B reclama do tratamento que tem recebido do parceiro de mais de duas décadas e teme ser utilizado apenas como grife à esquerda para a campanha da reeleição da presidente Dilma Rousseff, após o desembarque do PSB.

O partido está inseguro em relação ao comportamento do PT na próxima eleição, pois o governo federal dá sinais dúbios sobre as alianças em alguns Estados.

No Maranhão, o comunista Flávio Dino tem possibilidades concretas de se eleger governador se tiver o apoio do PT contra o clã Sarney. No Acre, a deputada Perpétua Almeida, a mais votada nas duas últimas eleições, não conseguirá, de novo, apoio dos petistas para disputar uma cadeira ao Senado.

No Rio de Janeiro, cansado de esperar por um aceno do PT, os comunistas decidiram lançar a deputada Jandira Feghali ao governo. PT e PMDB também vão se enfrentar nas urnas fluminenses.

Em São Paulo o partido lançaria o ministro Aldo Rebelo (Esporte) a governador, contra o tucano Geraldo Alckmin, o petista Alexandre Padilha (ainda ministro da Saúde) e o peemedebista Paulo Skaf, entre outros. Mas a presidente Dilma Rousseff pediu a Rebelo que fique no ministério para tocar o Esporte na Copa do Mundo e a candidatura durou só cinco dias. Se Dilma se reeleger, Rebelo deverá ser mantido pelo menos até a Olimpíada de 2016 (mais informações abaixo).

Apesar das queixas, o PC do B apoiará a reeleição da presidente Dilma Rousseff, por não enxergar no horizonte nada melhor. O partido realizará o seu 13.º Congresso Nacional nos dias 14, 15 e 16 do mês que vem. É certo que vai ratificar o apoio à chapa a ser comandada por Dilma, que já programou aparecer por lá, assim como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

De todos os partidos que têm acompanhado o PT, o PC do B é de longe o mais fiel. Junto com o PSB apoiou a candidatura de Lula em 1989, assim como em 1994 e 1998, todas derrotadas, e as vitórias de 2002 e 2006, além da eleição de Dilma em 2010. O PSB saiu da chapa em 2002, quando lançou o candidato Anthony Garotinho, e em 2006. Em 2010 voltou a compor com o PT. Agora, rompeu definitivamente e deverá lançar o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, candidato à Presidência da República.

Mágoas. O descontentamento do PC do B em relação ao PT começou com a formação do governo de Dilma, em 2011. O partido, que tinha o Ministério do Esporte, algumas secretarias do Ministério da Cultura, a Embracine e a direção da Agência Nacional do Petróleo (ANP), perdeu cargos. Ficou com só com o Esporte e a Embratur. Na eleição municipal do ano passado os problemas continuaram. Os petistas se recusaram a apoiar a candidatura da deputada Manuela D'Ávila à Prefeitura de Porto Alegre.

Desde então, os comunistas se referem aos problemas que têm com o PT como de "relacionamento hegemônico".

Caso Maranhão. Para a eleição do ano que vem o PC do B exige que o PT apoie a candidatura de Flávio Dino ao governo do Maranhão. Acontece, porém, que os petistas teriam de romper a aliança que mantêm com a família Sarney no Estado.

Há cerca de uma semana houve um ensaio nesse sentido. O assunto foi debatido nos bastidores do Palácio do Planalto e aliados da presidente confirmaram que o PT apoiaria o PC do B contra a oligarquia Sarney.

O ex-presidente José Sarney (PMDB-AP), que em 2002 foi um dos primeiros a aderir à candidatura de Lula, mesmo sem autorização do PMDB, reagiu. O Palácio do Planalto foi obrigado, então, a divulgar nota para desmentir o apoio a Dino, e o presidente do PT, Rui Falcão, declarou que nenhuma decisão havia sido tomada. O PC do B continua esperando pela ajuda.

Mesmo insatisfeito, os números mostram que o PC do B cresceu ao se aliar ao PT. Em 2001, o PC do B tinha 33.948 militantes filiados; em 2005, 69.638; e em 2009, data da última contagem e do último congresso, 102.332. Em 1999 elegeu sete deputados federais; em 2003, na primeira eleição de Lula, 12, aumentando para 13 na reeleição e para 15 na eleição de Dilma. Em 2006 o partido elegeu seu primeiro senador: Inácio Arruda (CE). Em 2010, a segunda: Vanessa Grazziotin (AM).

Com 91 anos - foi fundado em 1922, passou por um processo de racha com a ala de Luiz Carlos Prestes e tem a idade contestada pelo PPS, sucedâneo do PCB -, o PC do B carrega uma história marcada por tragédias, clandestinidade, mortes e massacres. É, hoje, uma das legendas que exercem maior atração na juventude. O partido comanda a União Nacional dos Estudantes (UNE) e mantém células que atuam principalmente entre os operários. Mais aberto hoje, aceita em suas fileiras o filiado e o militante. Este tem menos deveres do que aqueles.

O PC do B tem sede própria, um prédio de oito andares no centro de São Paulo. O imóvel custou R$ 3,3 milhões. Foi comprado, segundo o partido, com verba do Fundo Partidário e com a contribuição de militantes. Em 2012 o PC do B recebeu R$ 8,2 milhões do fundo. Neste ano, até junho, tinha recebido cerca de R$ 4,1 milhões, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

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