JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

‘Paulo Guedes é um mitômano e criou falsa narrativa’, diz Persio Arida

O economista, coordenador do programa econômico de Geraldo Alckmin (PSDB), afirma ainda que Bolsonaro é um ‘risco à democracia’ assim como Haddad se ele ‘de fato for o Lula’

Entrevista com

Persio Arida, economista

Renata Agostini, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2018 | 05h00

Coordenador do programa econômico de Geraldo Alckmin (PSDB), Persio Arida diz que o mercado está em autoengano ao acreditar que Paulo Guedes garantirá a linha liberal de um governo Jair Bolsonaro (PSL). “O presidente faz o que quer e não o que combinou com o economista. Quem tem a caneta manda”, disse ao Estado.

Ele critica a inexperiência de Guedes, a quem classifica de mitômano. “Ele nunca produziu um artigo de relevo. Nunca dedicou um minuto à vida pública, não faz ideia das dificuldades.”

Para Arida, a postura liberal de Bolsonaro é uma farsa e ele segue o mesmo roteiro de tradicionais líderes de esquerda latino-americanos ao acenar aos liberais nas eleições. “Hugo Chávez também mostrou-se amigável com o mercado em sua primeira eleição. Durou pouco.”

Sobre a estagnação de Alckmin nas pesquisas, avalia que a campanha precisa buscar a parcela que não quer os extremos de PT e Bolsonaro. Segundo ele, ambos são riscos à democracia.

Como fica a campanha diante do atentado a Bolsonaro e a confirmação do nome de Haddad?

Bolsonaro foi vítima de uma selvageria. O atentado tem de ser recriminado por todos. Agora, do ponto de vista político, ele está onde sempre esteve. Ele sempre comungou com a esquerda o viés estatizante e corporativo. Por isso, votou com a esquerda no passado, inclusive contra o Plano Real. Seguiu assim: votou contra o cadastro positivo, se declarou a favor da criação de municípios. Acabou de dizer que não privatizará Petrobrás, Banco do Brasil ou Caixa, pois são estratégicas, linguagem da esquerda. A virada em busca do discurso liberal está de acordo com o perfil dos candidatos tradicionais de esquerda.

Por quê?

Lula fez isso com a “Carta ao Povo Brasileiro” (que precedeu sua primeira eleição, em 2002). O tenente-coronel Hugo Chávez fez isso. Tal como Bolsonaro, mostrou-se amigável com o mercado financeiro em sua primeira eleição, disse que não tinha nada contra o FMI. Depois, convocou Constituinte e o resto da história é a tragédia que conhecemos. Esse movimento de Bolsonaro é o padrão normal latino-americano. Ele é um engodo liberal.

Paulo Guedes não é o fiador dessa proposta liberal?

Paulo Guedes é mitômano, criou falsa narrativa pela qual PSDB e PT são iguais e que tudo no Brasil foi errado porque ele e os liberais nunca estiveram no poder. Ele nunca escreveu um artigo acadêmico de relevo, tornou-se um pregador liberal. Falar é fácil, fazer é muito mais difícil. Nunca faltaram bons economistas liberais no Brasil. O problema sempre foi a falta de políticos com essas convicções. Se economista liberal resolvesse, o governo Dilma tinha sido um sucesso: Joaquim Levy, também da Universidade de Chicago e, ao contrário de Guedes, com enorme experiência prévia, foi nomeado para a Fazenda. O presidente faz o que quer e não o que combinou com o economista. Quem tem a caneta manda. 

Guedes argumenta que se demorou a entender a necessidade de conter o gasto público.

Ele nunca dedicou um minuto à vida pública, não tem noção das dificuldades. Partiu para uma campanha de difamação que é de um grau de incivilidade que não se vê em outro assessor econômico. Pegar um episódio de 1995 quando saí do Banco Central e usá-lo para fins difamatórios, falando mentiras, mostra o caráter dele (segundo a revista Piauí, Guedes tem dito em reuniões com investidores que Arida deixou o BC por ter vazado informações, o que Arida rechaça). Ele está cego de ressentimento, ódio e inveja: difama todos que discordam de suas ideias.

Como ele em Bolsonaro, o sr. não está confiando em Alckmin?

Alckmin já fez ajuste fiscal em São Paulo. É diferente de acreditar em alguém que se “converteu”. O Brasil precisa de reformas que demandam emendas constitucionais e aprovação de leis. Sem articulação política, não se conseguirá. Há duas opções: fazer acordo com Centrão antes ou depois das eleições. A ideia da antipolítica, de que não vai fazer acordo com ninguém, é enganação. 

O fato é que Bolsonaro segue subindo nas pesquisas. Alckmin, não.

A indignação criada com a Lava Jato e os 13 milhões de desempregados geraram no País a busca por alguém que resolva os problemas do dia para a noite. Todo sonho messiânico é poderoso e irrealista. Ele aparece no Bolsonaro e no Lula.

Alckmin ficou sem espaço?

Há parcela significativa da população que não quer extremos e não se ilude com essas retóricas. São eles que a campanha tem de chamar para si. 

Bolsonaro e PT são a mesma coisa?

No PT, há um líder carismático latino-americano tradicional que é o Lula, o Perón brasileiro. As pessoas se enganam com o primeiro governo dele. Era o Lula com medo da instabilidade econômica. Quando não caiu com o mensalão e se reelegeu, ele deixou de ter medo. O verdadeiro Lula é o do segundo governo e o que nomeou Dilma. O que é Fernando Haddad ninguém sabe. As ideias que vinha pronunciando como assessor são ruins: controle social da mídia, tributação de spread bancário. Continuar a herança do Lula é o caminho para o Brasil se perder.

O diagnóstico econômico de Paulo Guedes não é correto?

Falar de sistema de capitalização na Previdência é irresponsabilidade fiscal. Ele não demonstrou como fazer. Tal como outros, não achei o um trilhão a ser obtido com a venda de estatais. Não se entende tampouco como acabar com o déficit público em um ano. 

Tasso Jereissati disse ao 'Estado' que o PSDB paga agora por “erros memoráveis”. Concorda?

Concordo com observações de Tasso. Mas não sou filiado do PSDB, nunca tive vida partidária. Importante lembrar que Alckmin foi contra o PSDB ter cargos no governo Temer. A postura dele foi de apoiar as reformas que o País precisa.

Qual candidatura rival representa o maior risco ao País?

Bolsonaro é um risco à democracia. No passado, várias vezes falou em fechar o Congresso. A vocação totalitária está clara. Alguém que diz que seu livro de cabeceira é do Coronel Ustra empreende uma tentativa de revisão da ditadura como algo positivo, o que é um risco. Conheci Ustra. Fui preso, passei noites ouvindo os gritos das torturas que aconteciam. O revisionismo que se tenta fazer hoje é arrepiante. É exatamente o revisionismo na Alemanha de quem tenta dizer que nunca houve holocausto. 

Bolsonaro é o maior risco?

Se Haddad de fato for o Lula, é um risco também. Alguém que incita o povo contra a Justiça, procura fazer o descrédito da Justiça e ataca as instituições é um risco à democracia, sim.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.