Pasta 'empacota' programas para a classe média

Secretaria de Assuntos Estratégicos vai integrar projetos de apelo eleitoral e complementá-los com ações de outras áreas

DÉBORA BERGAMASCO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2013 | 02h08

Depois de dez anos batendo na tecla do combate à pobreza, o governo federal prepara um "pacote" assistencial para a classe média, que representa hoje 52% da população brasileira. A Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência (SAE) está mapeando todos os programas já disponíveis para este estrato social. Após identificados, eles serão integrados e complementados por ações de outros ministérios.

A iniciativa seguirá o mesmo script do processo que deu origem ao Brasil Sem Miséria, plano que unificou uma centena de ações de transferência de renda aos mais pobres.

Para o economista Ricardo Paes de Barros, subsecretário de Ações Estratégicas da SAE e um dos líderes deste mapeamento, "hoje o governo brasileiro tem uma quantidade enorme de programas voltados para a classe média, mas não são percebidos pela população dessa forma porque não estão organizados e empacotados assim". "É nada mais que pegar grande parte daquilo que a gente já faz, organizar, dar uma estrutura e perceber pontos cegos. Os ministérios específicos terão o dever de casa de completar o que está faltando. É explicitar o que implicitamente o governo brasileiro já tem, como valorização do salário mínimo. Mas não há prazos e a presidente vai lançar quando e se achar que é conveniente."

O ministro interino da SAE, Marcelo Neri, concorda: "Falta esse empacotamento e acho que ele já está no horizonte, porque o número de pobres está sendo reduzido". Neri, que assumiu a Secretaria há pouco mais de uma semana, já vinha estudando o assunto como presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), instituição vinculada à pasta que agora comanda.

"A frase de que 'o fim da miséria é só o começo' está querendo dizer 'o que vem depois?'", explica Barros. O jogo de palavras que aponta para os passos futuros da gestão de Dilma Rousseff foi criado pelo marqueteiro João Santana e apareceu, por exemplo, em propaganda do governo federal na TV em fevereiro deste ano.

Conforme classificação da Secretaria, integra a classe média hoje o brasileiro que dispuser de renda per capta entre R$ 291 e R$ 1.019 mensais. Abaixo disso, faz parte da classe baixa (28% população), e acima deste patamar, da alta (20% dos cidadãos), de acordo com dados organizados pela SAE e publicados no estudo "Vozes da Classe Média 2", em novembro do ano passado.

Segundo Neri, as necessidades da classe média são diferentes das dos mais pobres. "Aqui o plano é menos ligado à transferência de renda e mais associado ao fornecimento de serviços públicos de qualidade, revolução do ensino, melhoria nos transportes."

Outro viés das pesquisas no âmbito da SAE apontam que hoje o cidadão da camada social intermediária não sonha apenas com um trabalho com carteira assinada, mas com estabilidade no emprego. Por isso, iniciativas de valorização do profissional como o Pronatec, de acesso ao ensino técnico, e o Ciência Sem Fronteiras, de intercâmbio para estudantes de graduação e pós, entrarão neste plano ainda embrionário e sem nome.

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