Participação nos lucros

Tanto faz se a presidente Dilma Rousseff entrará ou não pessoalmente na campanha para as eleições municipais, conforme avisara, ou se vai a campo como pareceu indicar a substituição de um deputado petista no Ministério da Pesca, por um senador representante da Igreja Universal sob a legenda do PRB.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2012 | 03h07

A presença de Dilma nos "palanques" - propaganda de rádio e televisão, "vistorias" em obras, inaugurações ou visitas presidenciais às cidades com vista a produzir noticiário festivo-eleitoral - não pesa necessariamente a favor.

Dado o desengonçado gestual e a desarticulação verbal da presidente nesse quesito, há casos em que a presença dela - ainda mais se excessiva - pode representar um fardo.

É diferente com Lula, a estrela da companhia. Se estiver bem de saúde para entrar na campanha, será disputadíssimo por exímio no manejo das paixões. Verdadeiras ou falsas.

Isso não significa que os partidos aliados sejam indiferentes ao apoio e à presença federais em suas campanhas. Tanto são fatores considerados fundamentais que o PMDB providenciou um "alto lá" para tentar impedir que o PT capture com exclusividade os benefícios de ser governo.

Mas não é exatamente a presença de Dilma o que reclamam. É a sinalização de poder que possa representar a "presença" da máquina federal ao lado deles.

Notadamente nas médias e pequenas cidades - onde ocorrerá a disputa forte pela contabilização do maior número possível de prefeituras -, pesa e muito junto ao eleitor a percepção de que a parceria com o governo central pode levar benefícios aos municípios.

Esse é o capital em disputa. Por duas razões básicas: a contabilidade pós-eleitoral da quantidade de vitórias, que leva um partido a ser visto como "forte", e a influência dos prefeitos nas próximas eleições proporcionais, que determinam também força, mas no Congresso.

De onde é indiferente para os partidos que Dilma suba ou não nos "palanques", desde que compartilhe as vantagens substantivas de ser governo.

Leite derramado. O PT não tem motivo para lamentar a suspensão dos horários a que teria direito na televisão agora no primeiro semestre. Perdeu porque em 2010 desrespeitou a lei e usou o programa do partido como propaganda eleitoral para Dilma.

Errou e não errou inocente. E agora, quando lamenta a perda por causa da falta de espaço para divulgar a candidatura de Fernando Haddad a prefeito de São Paulo, mostra que, se pudesse, repetiria a infração.

Calça curta. Mal foi divulgado o documento de protesto contra os termos da aliança com o PT, assinado por metade da bancada do PMDB na Câmara, a cúpula do partido tratou de se associar ao movimento.

Não tão incisivamente que desse a impressão de ter incentivado o levante, nem tão discretamente que transparecesse ter sido pega de surpresa.

Mas a verdade é que foi. Na quinta-feira, quando começou a circular, nem o presidente do partido, Valdir Raupp, nem o vice-presidente da República, Michel Temer, nem o líder do partido na Câmara, Henrique Eduardo Alves, tinham cópia do abaixo-assinado.

Isso quer dizer que há insatisfação externa e contestação interna.

Lacuna. O encaminhamento das queixas expressas por militares da reserva, na realidade servindo como eco também para os da ativa impedidos por lei de se manifestar, evidencia a falta que o ex-ministro da Defesa Nelson Jobim faz como interlocutor na área.

As reclamações começaram com críticas a declarações de duas ministras sobre a ditadura, cresceram nos ataques à ainda não formada Comissão da Verdade e agora já permeiam o terreno da reivindicação salarial.

Urge, sem dúvida, uma intermediação antes que se explicite uma quebra de hierarquia sem porta de saída.

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