Para o que der e vier

A eleição municipal é o cenário onde as peças do projeto de poder do PT vão se mexer neste ano. Não se trata apenas de ampliar o número de prefeituras. Isso é importante para sair do pleito com a marca de campeão a ser registrada nos dias seguintes como mais um feito do partido.

Dora Kramer, O Estado de S. Paulo

15 de janeiro de 2012 | 03h05

Mas, da perspectiva do PT nacional, o fundamental é testar alternativas de alianças para os próximos embates eleitorais e ampliar a já mastodôntica base governista no Congresso.

E para que mais se o governo já tem cerca de 70% da Câmara e do Senado? Segundo uma expressiva liderança petista com assento no primeiro escalão executivo, "em matéria de base de apoio, quanto maior ela for mais opções nós temos e menos dependentes ficamos".

Partindo desse pressuposto, vale praticamente tudo. A regra é geral, para todo o Brasil, mas para São Paulo em particular. É na maior cidade do País que o PT pretende fazer ensaios mais ousados.

E por ousadia, entenda-se até o que parece impossível aos olhos de quem enxerga a política ainda pelo viés da lógica.

Por esse prisma - o da lógica, não o da audácia - a proposta de aliança feita pelo prefeito Gilberto Kassab ao ex-presidente Lula não teria a menor chance de prosperar.

Como visto pela objeção da seção paulista do PT seria algo fora de cogitação. Críticos da gestão chamada por eles de "demo-tucana", os petistas não teriam como explicar essa união ao eleitorado. Ficariam sem discurso e ainda correriam o risco de, em caso de vitória e posterior sucesso de gestão, não poder fazer do eleito candidato ao governo para não entregar a prefeitura ao PSD.

Pois estejam informados as senhoras e os senhores que a possibilidade de uma aliança com Kassab está sim entre as alternativas em exame na cúpula do PT.

Ante o espanto, a resposta vem em forma de indagação: "Qual a diferença ideológica entre o PMDB e o PSD?".

Nenhuma. Pois é. "Então por que um nos serve e outro não nos serve?".

Uma vez que o critério é nacional, a ideia é manter o diálogo aberto em todas as frentes com vista ao dia de amanhã. O PT não sabe ainda como o PSDB vai entrar na disputa nem se o PMDB vai manter a candidatura de Gabriel Chalita e acompanha com atenção os movimentos de Eduardo Campos do PSB.

Põe na roda, é claro que de maneira não explícita, a vaga de vice na chapa presidencial em 2014 e insinua que a depender da atuação dos aliados, incluídos pretendentes, pode haver troca de parceiro.

"Nessa altura o exercício do namoro é livre, todo mundo paquera todo mundo e é claro que interessa ao PT manter uma boa relação com todas as forças, inclusive com o Kassab no âmbito municipal porque o resultado terá repercussão nacional seja qual for", raciocina o petista.

Uma hipótese, porém, tiraria a aliança com Kassab de cena: a candidatura de José Serra. "Aí muda tudo, porque ele fica com Serra e o enfrentamento é inevitável".

Farejadores. Mesmo considerando que a subserviência ao Executivo é a lei no Congresso, a base governista não se contenta em proteger ministros que lá comparecem "por espontânea vontade" para supostamente submeter-se a questionamentos relativos às suas ações.

Os aliados do Planalto fazem um exercício de bajulação que seria constrangedor não fosse vergonhoso. Cada qual quer mostrar seus préstimos de forma mais explícita a fim de se credenciar ao pagamento da conta. Seja na forma de liberação de emendas, benesses oficiais de quaisquer naturezas ou, nos escalões mais altos, em contrapartidas eleitorais.

A oposição não põe seu regimento a campo, fazendo ressaltar sua insignificância e deixando que uns poucos travem batalha inútil e ainda sejam ridicularizados pela maioria em sua zombeteira prepotência.

Correção. No artigo de sexta-feira sobre os planos do prefeito Gilberto Kassab, saiu que a fidelidade partidária seria a regra no PSD. Faltou um "não", cuja ausência inverteu o sentido da frase.

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