Para jurista pena é alta; ex-mulher de Dirceu achava que 'ia ser mais'

Ex-ministro, escritor e sociólogos divergem na avaliação da punição de Dirceu e Clara Becker 'esperava pelo pior'

O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2012 | 02h08

Na avaliação do jurista Miguel Reale Júnior, professor da Faculdade de Direitos da USP, as penas aplicadas pelo Supremo Tribunal (STF) a José Dirceu e José Genoino são elevadas, mas justificadas do ponto de vista legal. "As penas são elevadas, sem dúvida, mas estão dentro dos parâmetros que foram aplicados a quase todos os envolvidos", afirmou. "São elevadas quando se considera que a prática comum é a pena mínima, sem necessidade de justificativa. No caso de agora se aplicou uma pena maior, mas justificada. Foram levadas em conta as circunstâncias judiciais e legais e também a questão do crime continuado."

O ex-deputado Plínio de Arruda Sampaio, que disputou a Presidência da República em 2010 pelo PSOL, também comentou a a extensão das penas. "O Supremo não se deixou impressionar pelo poderio político do acusado e deu uma pena pesadinha. Não facilitaram."

Para Sampaio, a decisão "foi uma demonstração da independência, da autonomia e do critério do Supremo"

O escritor e jornalista Fernando Morais criticou o STF. "É uma condenação injusta, mas não me surpreende", disse. "Três semanas atrás escrevi um artigo para o jornal Le Monde sustentando que este era um julgamento essencialmente político, e a sentença é uma confirmação disso. Quem está sendo julgado não é José Dirceu, mas o PT, ao qual nunca pertenci, e o primeiro governo da história do Brasil chefiado por um operário."

Para o sociólogo Demétrio Magnoli, o STF aplicou a lei. "A condenação dessas pessoas não é um motivo de comemoração, mas o fato de o Supremo ter cumprido a lei é um motivo de celebração."

Geração. O sociólogo Rudá Ricci, que também já fez parte dos quadros do PT, observou que o STF ajudou a virar uma página da história do PT. "Foi julgada agora a segunda geração do PT, que, ao contrário da primeira, que era mais libertária e antissoviética, tinha uma feição mais próxima dos partidos comunistas tradicionais. Seu personagem principal sempre foi o José Dirceu", observou. "Essa segunda geração elitizou a estrutura de comando do partido, se afastou das lideranças sociais."

Ainda segundo Ricci, há algum tempo essa segunda geração já vem perdendo prestígio e força, sendo substituída por uma terceira, mais técnica.

O ex-deputado e escritor Fernando Gabeira (PV), observou que a condenação de José Dirceu é "a consequência jurídica de um processo político que já havia sido decidido na Câmara com a cassação do mandato dele".

A comerciante Clara Becker, primeira mulher do ex-ministro José Dirceu, disse ter ficada "aliviada" ao saber que o pai de seu único filho foi condenado a dez anos e dez meses de prisão, com a possibilidade de ficar em regime semiaberto depois de 1 ano e oito meses. "Meu filho Zeca (Dirceu, deputado federal, PT-PR) havia me dito para eu esperar pelo pior porque queriam acabar com o pai dele. Dois anos até que passam rápido, pensei que ia ser muito mais",disse.

Ela disse ter ficado aliviada ao saber que o ex-ministro só deve começar a cumprir a sentença em 2013. Dessa maneira poderá passar a virada de ano com o filho. "Farão uma grande festa."

Como sabe que não será convidada, já se arranjou: "Para não ficar sozinha, liguei para minha irmã em Ponta Grossa e avisei: 'sobrou para você ficar comigo'"./DÉBORA BERGAMASCO, ROLDÃO ARRUDA E JÚLIO ETTORE, ESPECIAL PARA O ESTADO

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