'Para crescer é preciso destruir os outros?'

Desembargador critica Sartori, atual presidente, afirma que nunca pagou a si próprio e diz que é alvo de 'molecagem'

Entrevista com

FAUSTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h08

Não se curva o velho desembargador, 45 anos de toga, 72 de idade. "Isso não vai ficar assim", avisa. "Molecagem não fica bem numa instituição pública de alto respeito", ele diz. "Vamos tomar medidas judiciais, estardalhaço não é compatível com a discrição de um poder respeitado."

Roberto Antonio Vallim Bellocchi, ex-presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, não esconde o nome de seu alvo. Ele se refere ao desembargador Ivan Sartori, atual mandatário do Judiciário paulista, que incendiou a corte ao conduzir com mão de ferro histórico procedimento sobre os contracheques milionários - pagamentos antecipados a juízes.

Bellocchi, aposentado, é o número 1 da lista. Ele recebeu R$ 1,44 milhão, dos quais R$ 1,32 milhão concedidos em sua própria gestão (2008/2009). Sartori lhe atribui administração paralela, desvios, violação à moralidade e isonomia e sugere cassação de sua aposentadoria.

O desembargador suportou o libelo de Sartori até sexta-feira, quando decidiu tornar público seu inconformismo. Em sua trincheira jurídica, o tradicional escritório Siqueira Castro Advogados revelou como pretende fustigar os que o acusam. "Administração paralela? É daí que vão surgir medidas judiciais."

Quem mandava pagar?

A Comissão de Orçamento liberava o dinheiro. Eu nunca deferi ou indeferi sem a prévia concordância e manifestação da Comissão de Orçamento, a quem a função foi delegada. Eu dizia: 'Se vocês autorizaram, tudo bem'. O Navarro (Alceu Navarro, presidente do Tribunal Regional Eleitoral, que o acusa de determinar os desembolsos) ia ao meu gabinete. Perguntava: 'Pode ser assim?'. Eu dizia: 'Vocês é que conhecem, estudem a melhor maneira'. Tinha-se muita flexibilidade. Quem pode ser atendido agora, quem não pode, um pouco mais para uns, um pouco menos para outros. Comprar carros, viagens, essas coisas não eram autorizadas. Para saúde e dívidas podia. Todos têm muitos créditos. A dívida com funcionários e juízes passa de R$ 4 bilhões.

Os magistrados o procuravam para pedir?

Os contatos eram diretamente com a comissão. Ninguém me procurava para pedir liberação de dinheiro. Eu nem tinha tempo para cuidar disso, por isso deleguei a função. Quer dizer que conversei com 211 magistrados que receberam? Ora, e a minha tarefa protocolar, ficava onde? Aí é que entra o elo de responsabilidade da Comissão de Orçamento, formada por homens sérios, leais. O Navarro é um homem experiente, versado no Orçamento. Uma coisa tem que ficar muito clara: tudo era parcelado, nunca pago à vista. Os pagamentos todos foram legítimos e todos eles parcelados. Mesmos os ministros (Cezar Peluso e Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal) também receberam créditos, todos devidos e pagos parceladamente.

O sr. fazia seus pedidos por escrito ou eram verbais?

Por escrito, cada solicitação era um expediente. Nada foi deferido sem processo. Agora, se sumiu lá dentro do Tribunal algum documento, aí eu não tenho como responder. No meu caso, pelo menos dois pedidos que apresentei não foram encontrados. Não sei se os documentos se perderam ou se os perderam. Não se sabe onde foram parar. Tudo o que recebi está no meu Imposto de Renda. Seria algo insano dizer que eu me paguei. É uma leviandade. Atribuo a acusação a um quadro negro de maldade, de despreparado, de falta de entendimento. Onde está a improbidade? Sinto-me bastante aviltado. O conceito de isonomia tem que ser jurídico, não pode ser político. Como quebra de isonomia se nunca houve ordem cronológica de pedidos? O critério era possibilidade orçamentária e necessidade financeira. Minha gestão foi absolutamente transparente. Fico muito surpreso com o Navarro. Vou passar por mentiroso? Visionário? Navarro é um homem limpo, mas me surpreende essa estratégia de defesa infeliz.

Vai processar quem o acusa?

Em relação a alguns, inclusive a Sartori, virão medidas judiciais. O que (Sartori) quer provar? Para crescer na vida precisa destruir os outros? Eclode a pirotecnia? Não entendo essa verdadeira diatribe. Falou-se em modus operandi, em referência à minha conduta. Isso tem que falar para quem é amigo dele (Sartori), é linguagem criminosa. A arrogância precede a ruína. Sartori também delegou poderes à comissão para examinar e autorizar pagamentos. Tem jogo político, perseguição. Meus advogados estudam requerer o trancamento do disciplinar.

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