Ulisses Dumas / Ascom Rui Costa
Ulisses Dumas / Ascom Rui Costa

'Querem que Bolsonaro ganhe sem debater. Isso é ruim para a democracia', diz Haddad na Bahia

Presidenciável do PT visitou Feira de Santana, segunda maior cidade do Estado, neste sábado

Yuri Silva, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2018 | 12h00

FEIRA DE SANTANA (BA) - "O outro lado está um pouco desesperado, porque eles acham que, se o Bolsonaro for obrigado a debater, ele pode derreter. Eles querem que o Bolsonaro ganhe sem ter que debater, e isso é ruim para a democracia", afirmou o candidato do PT à Presidência da República, Fernando Haddad, durante uma live no Facebook, de dentro da van, minutos antes de visitar neste sábado, 6, Feira de Santana, segundo maior município da Bahia (a 110 km da capital) e eleitorado mais expressivo do Estado depois de Salvador. 

Em Feira, cidade que escolheu para fazer o derradeiro ato de campanha neste primeiro turno, Haddad fez um aceno ao eleitor nordestino. “O Brasil nasceu aqui e vai renascer aqui, na Bahia”, disse ele em entrevista a emissoras de televisão, após deixar o automóvel. A frase era apenas um trecho da série de acenos que ele faria, dali à frente, ao Nordeste, reduto eleitoral do líder petista, mas onde o presidenciável do PSL Jair Bolsonaro, líder nas pesquisas, começou a avançar nos últimos levantamentos. 

"Todas as regiões são importantes, mas é que o nordestino conheceu pela primeira vez o que é ser respeitado. Só foi respeitado nos nossos governos. Hoje já está sendo desrespeitado de novo, inclusive nas redes sociais. O nordestino sentiu na pele o que foram os anos de ouro do governo Lula e o que foram os anos de chumbo dos outros governos", continuou Haddad. 

Na tentativa de deter o crescimento do seu principal adversário, o petista ainda pediu que os eleitores não dessem atenção a mentiras que a campanha adversária supostamente estaria divulgando nas redes sociais, "sobretudo do ponto de vista de valores". E tratou também de fazer acenos também ao público religioso, conservador, ao dizer que é neto de um líder religioso e que é "casado com a mesma mulher há 30 anos".

Reduto do DEM na Bahia há 16 anos, mas onde Lula venceu a eleição de 2006 com 77,7% dos votos válidos, Feira de Santana é espelho do clima beligerante entre petismo e antipetismo que dá o tom desta eleição presidencial no Nordeste e no resto do País. Pesquisa interna do PT, cujo conteúdo Estado teve acesso, e que balizou a decisão de terminar em Feira de Santana a campanha, apostando na identificação local com o ex-presidente, mostra que 15% dos eleitores feirenses estão indecisos entre Haddad e Bolsonaro.

De camisa branca, com uma estrela vermelha no peito e adesivos da sua campanha colados nas roupas, ele desfilou pela cidade com um chapéu de vaqueiro, em cima de uma caminhonete, próximo ao público, acenando para transeuntes que se concentravam nas calçadas em frente bares e restaurantes. Também tirou selfies com eleitores petistas que caminhavam atrás dele – boa parte de uma claque ligada a candidatos a deputado que chegaram ao ato de ônibus, logo de manhã cedo.

Além dos 15 mil presentes, segundo estimativa do PT da Bahia (a PM não contabilizou o público), cercavam o presidenciável o governador baiano Rui Costa (PT), candidato à reeleição que lidera com ampla vantagem as pesquisas de intenção de votos, com 61% da preferência, e o ex-ministro e ex-governador Jaques Wagner (PT), que, após recusar o posto de substituto de Lula, também deve ganhar com facilidade a eleição para o Senado. Os dois são os principais fiadores da transferência do voto lulista para Haddad no Nordeste.

Antipetismo. "Eu voto em qualquer um, voto no Bolsonaro, mas não voto no PT de jeito nenhum", bravejou, o vendedor de lanches Joaci Silva, de 27 anos, enquanto fritava ovos e hambúrgueres em frente à Praça da Matriz. Ex-eleitor do PT, partido no qual votou na primeira vez em que pode ir às urnas, em 2006, quando Lula foi reeleito, o jovem feirense nem sabia que Haddad estaria na cidade, a poucos metros dele.

Alertado pela reportagem, Jó, como é chamado pelos clientes, reagiu, inconformado. "Se Lula tivesse governado com mais ética, nenhum político do PT perderia mais eleição no Brasil todo", disse, sem esconder a decepção com os rumos da sigla nos últimos anos, como o envolvimento em escândalos de corrupção.

Logo a eleição virou tema principal das conversas na barraca de lanches, no centro de Feira, termo com o qual os baianos se referem à Princesinha do Sertão. Careca, um senhor de aparentes 50 anos e de cabelos brancos que ajuda o colega no pequeno negócio, emendou que não votaria no PT também, apesar de simpatizar muito com Lula.

A justificativa para o recuo, disse, é que "parece que eles querem dissimular pra enganar o povo" ao dizer nos programas de televisão que Lula é Haddad, em referência ao slogan petista nesta eleição. "Aquilo é tudo coisa antiga", cravou, sobre os vídeos que foram exibidos com o ex-presidente apoiando Haddad, que Careca chama de "Adabe", expondo o nível de desconhecimento do candidato do PT ao Palácio do Planalto entre os mais pobres.

"Mas eu mesmo vou votar é no 13, haja o que houver, seja quem for", interrompeu um dos clientes, de roupas simples e boné vermelho, acompanhado da esposa, de bate-pronto apresentando seus motivos. "Fizeram muito por nós. Tem uns deputados do PT que ajudam a gente até hoje", contou, sem dizer os nomes dos parlamentares. Nem quis se identificar.


 

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