Luciana Prezia|Estadão
Luciana Prezia|Estadão

Para Ciro Gomes, esquerda deveria se aliar com o centro

Possível presidenciável em 2018, ex-ministro dos governos Lula e Itamar Franco diz que projeto de criação de frente com forças progressistas em discussão no País não é viável

Igor Gadelha, enviado especial, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2016 | 17h14

FORTALEZA - Após a vitória de seu candidato Roberto Cláudio (PDT) à prefeitura de Fortaleza, o ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT) afirmou que a saída para a esquerda é se juntar a forças de centro. Ciro prevê que a criação de uma "frente de esquerda" no Brasil, cogitada por algumas lideranças políticas, não é viável. Para ele, o País "não cabe na esquerda". "O Brasil precisa de um projeto nacional de desenvolvimento, com começo, meio e fim, e que, audaciosamente, busque construir um grande entendimento entre quem produz e trabalha. Este é o projeto que estou montando", disse. Segundo ele, o mais viável é a união de políticos de "centro-esquerda".

Ciro adiantou cálculos de seu terceiro projeto como presidenciável. O ex-ministro dos governos Luiz Inácio Lula da Silva e Itamar Franco não prevê, por exemplo, o apoio do PT à sua campanha no primeiro turno das eleições de 2018. 

"Acho que não acontecerá no primeiro turno esse ajuntamento", afirmou Ciro em entrevista ao Broadcast Político, serviço de notícia em tempo real da Agência Estado. "É a natureza do escorpião. A natureza do PT é essa", disse, em referência à fábula de Esopo sobre a rã e o escorpião. Segundo o ex-ministro, Lula já disse, nos bastidores, que poderá apoiá-lo, mas ele não acredita. "Ele me disse isso antes da Dilma também. O candidato é você. O tempo todo. E eu dizendo: você não tem como bancar isso".

O ex-governador do Ceará acredita que somente em um eventual segundo turno o partido do ex-presidente Lula poderia vir a apoiá-lo. Para Ciro, há um "lado bom" nisso. "Vou tentar apresentar um projeto. E quero ver se comovo a opinião com esse projeto", diz. No primeiro turno, o pedetista acredita que o PT tem nomes para lançar, como o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e o ex-ministro Jacques Wagner.

Na avaliação de Ciro, Lula não deve se candidatar novamente. "A melhor hipótese seria ele ganhar e não conseguir governar e prorrogar essa crise", afirmou o ex-ministro, que foi candidato a presidente em 1998 e 2002. "Tem horas que você tem de entender que seu papel é dar passagem generosamente, recuperar seu justo nome na história, desmobilizar esses ódios e tentar com alguma generosidade dar passagem".

Candidatos. Ciro prevê que o pleito de 2018 terá um quadro semelhante ao de 1989, primeiras eleições diretas para presidente após a ditadura militar. Segundo ele, a disputa deverá ter de cinco a seis candidatos competitivos. "O (Geraldo) Alckmin, se quiser, será candidato", afirma o pedetista, em referência ao governador de São Paulo, considerado o grande vitorioso do último pleito municipal por eleger João Doria (PSDB) prefeito de São Paulo no primeiro turno.

Na visão dele, o PMDB deverá lançar ou o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, atualmente filiado ao PSD, ou o próprio presidente Michel Temer, caso haja alguma melhoria na economia brasileira. Os outros três candidatos seriam ele, a ex-senadora Marina Silva, que tem o "recall" das últimas duas eleições presidenciais, e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC). "De 10% para cima, todos. Com 30%, nenhum", afirma.

Estado - Na sua avaliação, por que o PT teve um desempenho ruim nestas eleições?  

Ciro - O PT pagou um preço, parte merecido, parte não merecido. Chamo atenção, por exemplo, para eleição de São Paulo. Se alguém não merecia pagar esse preço era o (Fernando) Haddad (prefeito de São Paulo). Está terminando o mandato sem um único escândalo. Porém, é inequívoco que o PT, inclusive merecidamente, pagou um preço nas grandes cidades por sua incoerência e contradição, parte na questão moral, mas, mais grave do que isso, a contradição que foi liderada pelo próprio Lula, de ter construído essa aliança assentada na mais despudorada fisiologia.

2. Acha que o senhor saiu favorecido após o resultado das eleições?

Há uma usina de destruição de lideranças no País. E tenho conseguido me preservar e alguns defeitos, assim ditos meus, acabam hoje virando virtudes. Uma certa intransigência, a ideia de denunciar. Quando chamei o (deputado cassado) Eduardo Cunha (PMDB-RJ) de ladrão, não faltaram cavalheiros reclamando que sou um cara de temperamento quente. Hoje, a sociedade brasileira inteira está sabendo, mas foi a mim que ele processou.

3. Acha que ganhou espaço na esquerda com a derrocada do PT?

Acho que esse adjetivo (esquerda) tem que ser reconstruído. Hoje, ele não cabe no nosso País. Porque esquerda é uma prática, um conjunto de valores. 

4. Como vê o cenário eleitoral de 2018?

Acho que vai acontecer em 2018 um quadro semelhante ao ano de 1989. A diferença básica e mais relevante é que, em 1989, foi uma eleição escoteira, só para presidente da República, e estas serão eleições gerais. 

5. Acredita que o PT o apoiará em 2018?

Não. É a natureza do escorpião (referência à fábula de Esopo sobre a rã e o escorpião). E aqui para nós, é justo, muito justo. A natureza do PT é essa. Se o PT me apoiar seria ótimo. Porque o que acho que a gente precisa é organizar um projeto nacional de desenvolvimento, e esse projeto tem que ter mediações. Mas acho que não acontecerá no primeiro turno esse ajuntamento. Isso é um cálculo.

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