Para chefe da AP, jornalismo está sob 'ataque'

Gary Pruitt alerta contra vigilância governamental; discurso marcou início da Assembleia Geral da SIP

CLÁUDIA TREVISAN, ENVIADA ESPECIAL / DENVER, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2013 | 03h12

A imprensa e suas fontes de informação devem adotar medidas para se proteger da crescente vigilância de governos, que dispõem de tecnologia cada vez mais avançada de monitoramento das comunicações de seus cidadãos, afirmou ontem o presidente da Associated Press, Gary Pruitt, em discurso na 69.ª Assembleia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), em Denver, nos Estados Unidos.

Pruitt não revelou as ações que sua própria organização está implementando, mas mencionou o uso de criptografia e a retomada da velha prática de repórteres e fontes se encontrarem pessoalmente, evitando telefonemas e e-mails, que deixam registros eletrônicos. "Nós estamos olhando para isso seriamente", observou.

Além de tentar se proteger contra a intromissão oficial, os meios de comunicação devem manter a vigilância contra excessos governamentais, muitos dos quais cometidos sob o pretexto de proteção da segurança nacional. "Nós não podemos baixar a guarda", declarou Pruitt aos membros da entidade.

Em sua opinião, o "ataque ao jornalismo" não terminará tão cedo. "Na verdade, torna-se ainda mais difícil combatê-lo quando a tecnologia dá aos governos ferramentas cada vez mais poderosas para acompanhar as ações e as comunicações de seus cidadãos", ponderou, em discurso que tratou de liberdade de imprensa e segurança nacional.

Monitorada. A Associated Press (AP) se viu neste ano no centro de um caso explosivo, no qual os dois princípios se chocaram. Em maio, a agência foi comunicada pelo Departamento de Justiça americano de que 21 de suas linhas telefônicas haviam sido monitoradas durante 40 dias do ano anterior.

A ofensiva fazia parte de uma investigação cujo objetivo era identificar a fonte de reportagem da AP de maio de 2012 sobre um plano terrorista fracassado da Al-Qaeda no Iêmen, que tinha por objetivo explodir um avião com destino aos EUA.

"Essa intromissão sem precedentes nos registros de coleta de informações jornalísticas da AP por funcionários do governo era tão amplo, tinha um alcance tão grande e foi tão secreta que violou a zona de proteção da nossa Primeira Emenda", lembrou Pruit, em referência ao princípio constitucional que garante a liberdade de imprensa.

A reação às ações do Departamento de Justiça forçou o governo a atualizar as regras que dão garantias à imprensa em investigações oficiais, reafirmando a exigência de notificação prévia sobre requisição de registros de comunicação, que passaram a incluir e-mails e mensagens de texto.

A repercussão, segundo ele, também foi além das fronteiras americanas. "As ações do Departamento de Justiça não poderiam ter sido mais apropriadas para confortar os regimes autoritários que desejam suprimir seus próprios meios de comunicação", avaliou Pruitt, lembrando que a liberdade de imprensa nos Estados Unidos é um modelo e uma aspiração de muitos países ao redor do mundo.

Para Pruitt, o próprio tema de seu discurso reflete um falso dilema. "Os governos que tentam criar uma situação em que os cidadãos pensam que devem escolher entre uma imprensa livre e a segurança estão cometendo um erro que acabará por enfraquecê-los, e não fortalecê-los."

NSA. A Assembleia Geral da SIP prossegue hoje com destaque para o painel da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação. A entidade debaterá técnicas de espionagem da Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês), e o caso do ex-agente Edward Snowden, exilado na Rússia após denunciar esquemas de controle de mensagens eletrônicas e contatos telefônicos de cidadãos, empresas e autoridades em diversos países, inclusive no Brasil - o que levou a presidente Dilma Rousseff a cancelar uma visita de Estado aos EUA.

Amanhã, a SIP debate a legalização da maconha nos Estados Unidos e o impacto dessa legislação.

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