Daniel Teixeira / Estadão
Daniel Teixeira / Estadão

Para analistas, problemas que afetam paulistanos exigem soluções que alcancem mais de uma área

Em série de reportagens e conteúdos digitais, Estadão tem buscado apresentar o contexto mais abrangente dos desafios que serão enfrentados pelos próximos prefeitos

Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2020 | 05h00

A mais rica cidade brasileira, que concentra 10% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, é também o lugar onde se multiplicaram dificuldades. São Paulo tem mais de 470 mil famílias na fila por moradia e a maior população vivendo em favelas do País. Os paulistanos passam, em média, duas horas por dia no transporte público para conseguir trabalhar e estudar – e dizem que as oportunidades de emprego ficaram mais escassas nos últimos anos. Se o acesso à água chega a quase todos, quatro a cada dez não têm seu esgoto tratado.

À semelhança de outros municípios brasileiros, a capital paulista se expandiu e viu crescer a demanda por serviços de saúde, saneamento, transporte, moradia e tantos outros. A maior parte desses problemas está entre as atribuições das prefeituras e será tema dos planos de governo nas eleições municipais, marcadas para 15 de novembro. São as questões com impacto mais direto na vida dos cidadãos. Como dizia o ex-governador Franco Montoro, um municipalista convicto: “ninguém mora na União, e ninguém mora nos Estados; todos moram nos municípios”.

Em uma série de reportagens e conteúdos digitais, o Estadão tem buscado apresentar o contexto mais abrangente dos desafios que serão enfrentados pelos próximos prefeitos no Executivo municipal e exemplos de soluções que podem ser aplicadas na gestão pública. Na sexta-feira, 9, o estadão.com.br lançou um monitor das propostas dos candidatos à Prefeitura de São Paulo

“As cidades brasileiras, praticamente de todos os tamanhos, têm três problemas principais gravíssimos: infraestrutura sanitária, o uso e a ocupação do solo, e a mobilidade”, resumiu o professor Valter Caldana, que coordena o Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Ele também é um crítico da centralização política, e defende que apenas soluções “interdisciplinares”, pensadas para atacar mais de um problema ao mesmo tempo, serão capazes de dar conta dos problemas. 

O marco regulatório do saneamento básico, aprovado no Congresso Nacional há quatro meses, traz um dos maiores desafios para o debate eleitoral de 2020. Para Caldana, os candidatos deveriam assumir compromissos agora – sob o risco de que o preço pelo abastecimento de água e tratamento de esgoto fique mais caro e ineficiente em locais que não fizerem essa discussão. 

Resiliência

A professora Roberta Kronka, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), também defende planos de governo “transversais” que conecte soluções para diferentes áreas. Ela chama atenção para a necessidade cada vez mais frequente de planos emergenciais para lidar com ocorrências climáticas ou sanitárias nas cidades – os chamados “planos de resiliência”. Nessas situações, as prefeituras devem saber quais ações tomar para mobilizar toda a sociedade e setores do governo que vão desde a Defesa Civil até os motoristas. 

“Precisamos resolver as emergências, mas e depois? Precisamos nos preocupar com questões de médio a longo prazo para não acontecer de novo. A resiliência média o quanto a cidade consegue absorver os problemas e voltar ao funcionamento de forma minimamente ‘normal’”, afirmou a professora. “Infelizmente, esses planos acabam sendo descobertos em locais que já passaram por problemas, quando passam pela segunda vez.”

O exemplo usado por todos tem sido a pandemia do novo coronavírus. O professor Ciro Biderman, do Centro de Estudos de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que a situação escancarou o problema da rigidez no setor público. “Em geral, os candidatos têm de começar a pensar de alguma forma em trazer isso que o setor privado tem tão facilmente: flexibilidade”, disse Biderman.

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