Palácio do Planalto prevê mais desgaste com nova fase do mensalão

Auxiliares de Dilma avaliam que adiamento da decisão poderá atrapalhar reeleição

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2013 | 02h07

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff quer manter o governo distante do novo julgamento do mensalão. A leitura política no Planalto é a de que a reabertura do caso pelo Supremo Tribunal Federal provoca desgaste ao governo e pode contaminar a campanha da reeleição, em 2014, mas a ordem é manter o silêncio.

Em conversas reservadas, ministros do PT dizem que, para o governo, melhor seria o STF começar agora a julgar o mensalão mineiro, que atinge o PSDB do senador Aécio Neves (MG), provável candidato tucano à Presidência. Ninguém no governo e no PT gostou da escolha do ministro Luiz Fux como relator dos embargos infringentes.

Nos bastidores do partido, ele é considerado "um traidor" por ter prometido "matar no peito" o processo contra o ex-ministro José Dirceu, antes de ser indicado para a Corte, e depois condenar todos.

Na prática, integrantes do governo acreditam ser pouco provável uma guinada no julgamento dos réus do PT. Temem, por isso, que prisões sejam decretadas e petistas apareçam algemados durante a campanha de Dilma apenas para "compor a foto" contra o partido da presidente. Na avaliação do PT, a disputa para reeleger a presidente Dilma não será um passeio.

"Esse julgamento dos embargos tem que ficar para 2015, para depois das eleições", disse o presidente do PT de São Paulo, deputado Edinho Silva. "Até agora, o Supremo agiu de forma muito politizada para uma Corte."

Para o líder do PT no Senado, Wellington Dias (PI), a cúpula do partido ficou perdida e atuou de forma equivocada ao não assumir a defesa pública dos réus do mensalão. "O PT garantiu os advogados, mas errou quando, na fase da denúncia, em 2005, não assumiu, logo no início, a posição da prática de crime eleitoral. Deixou a história da compra de votos crescer. Foi um erro pelo qual vamos pagar", insistiu Dias.

O diagnóstico pragmático no PT e no governo sobre a conveniência política da reabertura do processo, porém, embute contradições. Motivo: há solidariedade aos réus, principalmente ao ex-presidente do PT José Genoino. No partido e no Planalto, no entanto, o comentário é que Genoino pode ser o único que não irá para a cadeia.

A presidente conversa com frequência com José Genoino e torce por ele, mas não tem mais contato com Dirceu e muito menos com o deputado João Paulo Cunha (SP), ex-presidente da Câmara, e com o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares.

Na terça-feira, a presidente Dilma aproveitou a posse do novo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, para afirmar que "agentes da lei" devem agir com "serenidade". Pediu que o Judiciário seja "sábio e ágil" e disse esperar "imparcialidade" para que as decisões sejam tomadas "com base nos fatos e no direito", sem pressões.

O dilema de defender explicitamente ou não os réus do mensalão tem sido motivo de debate na eleição para o comando do PT, marcada para novembro. Alguns candidatos à presidência do partido, ainda que de correntes minoritárias e de pouco peso político, chegaram a cobrar posição mais enérgica da cúpula petista. Dirigentes do PT cogitaram a possibilidade de divulgar ontem uma nota, após a aceitação dos embargos infringentes pelo Supremo, mas optaram pela discrição.

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