'Padrinhos' atuaram para manter Denucci

Ex-chefe da Casa da Moeda era irmão de uma amiga de Dilma e contava com aval de Lula, Delfim Netto, Dornelles e José Múcio

ROSA COSTA, RICARDO BRITO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2012 | 03h03

O ex-presidente da Casa da Moeda Luiz Felipe Denucci, demitido mês passado sob suspeita de irregularidades, se manteve no cargo mesmo depois do alerta da Polícia Federal por contar com uma rede influente de padrinhos, que começa no ex-presidente Lula, chega ao ex-ministro Delfim Netto e, por razões afetivas indiretas, encontra respaldo na presidente Dilma Rousseff.

A teia formada desde a nomeação de Denucci fez o governo pisar em ovos ao demiti-lo e expôs o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao seu maior constrangimento no cargo.

No governo, a presidente Dilma Rousseff manteve o apoio dado a Denucci pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2008, quando ele assumiu o cargo. Fora do Executivo, o nome do economista foi patrocinado, além de Delfim Netto, pelo senador Francisco Dornelles e pelo ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), ex-deputado e ex-ministro da Articulação Política da fase Lula, José Múcio.

A combinação de fatores explica a saia justa em que se meteu o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao tentar explicar porque só demitiu o presidente da Casa da Moeda dia 28, mesmo sabendo da investigação policial que o apontou como beneficiário de uma milionária e suspeita movimentação financeira.

A presidente Dilma Rousseff era amiga da irmã de Denucci, Tereza Cristina Denucci Martins, falecida ano passado de câncer. Ambas são contemporâneas. Pessoas próximas das duas informam que Dilma não quis contrariar uma amizade da época da ditadura que se estendeu até os dias em que era filiada ao PDT. Tereza foi casada com o mineiro Paulo Costa Ribeiro, do MR-8, desaparecido depois de preso por agentes da ditadura, em 1972. Exilada no Chile, Tereza passou a viver com José Ibrahim, ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco que liderou a primeira grande greve após o golpe de 64, com quem teve um filho.

Ela presidiu o Instituto Brasileiro do Empreendedor que, em 2004, assinou convênio com o Ministério da Saúde "para dar apoio financeiro e custear ações para reduzir o impacto traumático e os danos do suicídio causados a pessoas próximas". Consultada, a assessoria da Presidência da República não quis se manifestar sobre a relação de Dilma com a irmã de Denucci.

Padrinhos. O presidente do PTB, Roberto Jefferson, garante que quem "brigou" pela nomeação de Denucci foi o presidente Lula e não o seu partido, como Mantega insiste em afirmar. Pessoas próximas ao ex-presidente acrescentam que ele agiu para atender a seu conselheiro econômico, Delfim Netto, que gostava do trabalho de Denucci.

O senador Francisco Dornelles (PP-RJ), por sua vez, apoiou o nome porque gostou de seu currículo, com passagem na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e na Superintendência de Seguros Privados (Susep). Ambos e o ministro José Múcio não querem falar no assunto.

O deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP) afirma que só mesmo um apadrinhamento de peso explica a posição da ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, e do ministro Mantega em não atender ao pedido do partido para exonerar Denucci. "O Jovair (deputado Jovair Arantes, líder do PTB) pediu mais de 10 vezes para Ideli substituir o presidente da Casa da Moeda e ela não substituía", disse. "Isso só se justifica pelos padrinhos que ele tinha", complementou.

A assessoria da ministra confirmou o pedido, mas disse que Ideli não foi atendida no pleito ao partido para formalizar o pedido por escrito. O líder Jovair mostra a carta que entregou ao ministro da Fazenda dia 30 de fevereiro de 2010, pedindo que "afaste" Denucci "da mesma forma que o governo agiu em situações similares, afastando agentes públicos atingidos por investigações criminais".

Na carta ele se diz motivado pela denúncia de suspeita de corrupção publicada pela imprensa dias antes. Parlamentares do partido têm outra versão, a de que o ex-presidente da Casa da Moeda teria cobrado propina de fornecedores sob pretexto de abastecer o PTB, mas que o dinheiro era entregue a offshores com sede nas Ilhas Virgens, contratadas por ele.

Daniel Barroso, advogado de Luiz Felipe Denucci, afirma que o dinheiro movimentado por seu cliente veio da venda de uma casa em Miami, pertencente à sua mãe. Ele diz que os valores foram declarados à Receita e que "tudo se esclarecerá".

No PTB circula a versão de que Denucci tem problemas com a Receita por conta da operação financeira no exterior, o que aumenta o constrangimento do ministro Mantega, a cuja pasta a autarquia está subordinada.

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