Os tempos do unilateralismo vão se encurtando

A crise na relação entre Brasil e EUA não é um raio em céu azul. Resulta de condições nacionais e internacionais propícias a fortes questionamentos da política americana. É certo que a espionagem de governos e territórios estrangeiros é milenar. Há episódios na mitologia grega, há fatos citados na Bíblia. Isso não elimina a obrigação de, quando descoberta, ser vigorosamente denunciada e combatida.

ANÁLISE: Tullo Vigevani, PROFESSOR DA UNESP. MEMBRO DO INSTITUTO NACIONAL DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA DE ESTUDOS DOS EUA, ANÁLISE: Tullo Vigevani, PROFESSOR DA UNESP. MEMBRO DO INSTITUTO NACIONAL DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA DE ESTUDOS DOS EUA, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2013 | 02h11

No Brasil, a decisão de reagir de modo forte à espionagem conta com apoio quase unânime, ainda que com diferenças de tons. Portanto, o que parece ser uma decisão tomada a partir da vontade da presidente Dilma Rousseff tem como subproduto seu fortalecimento popular e mesmo entre as elites. Isso tem diferentes motivos, lembremos a tradição brasileira de prezar o direito internacional, a autonomia, a soberania.

No plano internacional, essa tensão se entrelaça com o forte questionamento da política do governo Obama na Síria. Como acabamos de ver na ONU e no G20, a posição daquele governo é bastante isolada. Além de perder apoios históricos, da Grã-Bretanha e da Alemanha, sua força no Congresso é duvidosa e boa parte da população americana rejeita a intervenção.

Consequentemente, a reação brasileira se dá em momento favorável ao fortalecimento ao menos parcial de objetivos de longo prazo: multilateralismo, respeito às regras da convivência internacional. A crise e as consequentes exigências brasileiras se inserem nessa trajetória.

Os EUA são ainda o país mais importante na ordem mundial. Interessam ao Brasil boas relações, fortalecimento do comércio, cooperação em geral. Para isso, ainda que essa crise seja de algum modo superada, é importante deixar claro que soberania e autonomia não podem ser barganhadas e que os tempos do unilateralismo vão se encurtando. Nessa perspectiva se insere a projetada viagem da presidente aos EUA.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.