Carlos Moura/CNI
Carlos Moura/CNI

‘Os riscos das eleições estão superdimensionados’, diz consultor americano

Para o analista, há exagero nos perigos associados tanto à vitória de Lula quanto à de Bolsonaro

Entrevista com

Christopher Garman, cientista político e diretor executivo para as Américas da Eurasia

José Fucs, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2022 | 16h24

O cientista político Christopher Garman, diretor executivo para as Américas da Eurasia, uma consultoria americana especializada em avaliação de riscos, tem um retrospecto respeitável em suas previsões sobre o Brasil. Por isso, com a campanha eleitoral ganhando tração, convém ouvir o que ele tem a dizer sobre o pleito.

Em 2018, seis meses antes das eleições, Garman foi um dos poucos entre seus pares a afirmar que Bolsonaro tinha grandes chances de ir para o segundo turno, quando a maioria  jurava de pés juntos que a candidatura do capitão era “fogo de palha”.  Em 2014, logo depois das eleições, ele antecipou a formação de uma “tempestade perfeita” contra a então presidente Dilma Rousseff, formada pela combinação de um governo com sustentação política limitada e baixa credibilidade perante o mercado, por um escândalo de corrupção “já contratado”, como o petrolão, e por um cenário econômico complicado. Deu no que deu.

Nesta entrevista ao Estadão, Garman afirma que os riscos associados tanto à vitória de Lula quanto à de Bolsonaro “estão sendo superdimensionados”.  “O Lula não vai dar uma guinada radical para a esquerda, ampliando os gastos de forma irresponsável, e o Bolsonaro não vai representar uma ameaça à democracia.”  Segundo ele, independentemente de quem ganhe a eleição e da retórica eleitoral, não deverá haver um abandono da responsabilidade fiscal no novo governo, porque as lições de 2015 e 2016 ainda perduram. “A classe política viu como o descontrole fiscal pode levar a uma recessão profunda.”

Para Garman, os principais temas da campanha serão emprego e renda, enquanto o combate à corrupção deve ficar em segundo plano, ao contrário do que aconteceu em 2018. “A inflação, decorrente de um choque global nas cadeias de produção, puxou a alta dos alimentos e dos combustíveis, e ao lado da inércia doméstica gerou uma redução de renda importante”, diz. “Acredito que o candidato que for mais crível nesses dois temas vai ganhar a eleição.”

Hoje, muitos analistas traçam um quadro catastrófico do Brasil. Na sua visão, a coisa está tão feia quanto dizem por aí? Como o sr. avalia o atual cenário político-econômico do País e como ele deve afetar as eleições deste ano?

O Brasil, como toda a América Latina, está vivendo um momento desafiador. A América Latina foi uma das regiões mais penalizadas do mundo pela covid-19.  Está sofrendo também com repercussões políticas e sociais mais fortes. A pandemia exacerbou os desafios que a gente já observava antes. Havia todo um ambiente de revolta contra o sistema político, contra a qualidade dos serviços públicos, com um crescimento econômico medíocre. Com a covid-19, a desigualdade e a pobreza aumentaram. A inflação, com a alta dos preços dos alimentos e dos combustíveis, afetou principalmente a população de baixa renda. Então, a gente está entrando num ciclo eleitoral com um ambiente social complicado e de grande descontentamento. Isso, obviamente, repercutiu em Brasília e o governo mudou o teto de gastos para acomodar mais demandas sociais. Só que, ao mudar o teto de gastos, acabou “desancorando” as expectativas e gerando incertezas no mercado em relação à situação fiscal. Agora, eu acredito, sim, que alguns riscos estão sendo superdimensionados.

Que riscos, em sua avaliação, estão sendo exagerados?

Eu vejo o Brasil no cenário pós-eleitoral com limites no downside (lado negativo). O País saiu da crise de 2015 e 2016 com a classe política reagindo a essas pressões sociais, mas sem ficar indiferente às repercussões de um descontrole fiscal maior. É uma classe política que viu como o descontrole fiscal pode levar a uma recessão profunda. Então, acredito que, em Brasília, há um reconhecimento de que, se esticar muito a corda do fiscal, todo mundo vai perder. Acho que isso vale para o Congresso e também para a esquerda, inclusive se o Lula ganhar a eleição. Temos de lembrar que esse mesmo Congresso aprovou a reforma da Previdência e o teto de gastos. É claro que, durante a pandemia, essa preocupação com a questão fiscal foi suspensa, não só no Brasil, mas em outros países. Agora, isso não significa que a classe política jogou a responsabilidade fiscal no lixo. As lições de 2015/2016 ainda perduram. Também vejo em Brasília a equipe econômica dizer que tem de respeitar e furar pouco o teto. Então, acredito que, independentemente de quem ganhar as eleições, seja o Lula, seja o Bolsonaro ou seja algum candidato da terceira via, não vamos ter um abandono da responsabilidade fiscal no novo governo. 

O sr. não vê diferença entre as visões dos principais candidatos em relação à questão fiscal?

Não quero subdimensionar a importância de quem ganhe. Acredito que haverá divergências importantes entre um governo Lula, um governo Bolsonaro e um governo da terceira via. Cada um tem os seus ativos e passivos. A terceira via entraria com muito mais credibilidade. Daria um choque de credibilidade de largada. Em um eventual governo Lula, vai ter mais gasto com mais tributo. Já em um governo Bolsonaro, a política que temos hoje deverá continuar, talvez com avanços nas privatizações. O meu ponto é que eu não vejo nenhum desses três fazendo grandes irresponsabilidades fiscais. O Lula não vai dar uma guinada radical para a esquerda, ampliando os gastos de forma irresponsável, e o Bolsonaro não vai representar uma ameaça à democracia. Quer dizer, você tem um exagero dos riscos associados tanto a Lula quanto a Bolsonaro. Mas isso não quer dizer que há pouca diferença entre eles. 

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O lema de campanha do Lula deve ser como o slogan do Trump: Let’s make Brazil great again
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Qual a sua visão sobre a continuidade das reformas, como a tributária e a administrativa, depois das eleições? 

A gente está num ciclo difícil, de crescimento econômico mais baixo, e qualquer governo que entrar não vai ter grandes índices de aprovação popular. Há um ambiente difícil para governantes. Agora, se não vai ter um ciclo grande de reforma transformadoras, também é improvável que haja grandes retrocessos. Muitas vezes, a incapacidade de aprovar uma reforma num governo facilita a aprovação no próximo. O governo Temer não conseguiu fazer a reforma da Previdência, mas o Bolsonaro fez. Vejo a reforma tributária um pouco nessa categoria. A reforma tributária, com a adoção do IVA (Imposto sobre Valor Agregado), não foi aprovada neste governo, mas pelo menos o debate avançou. Os governadores estão mais alinhados e acredito que esse projeto pode avançar depois das eleições. Agora, será que isso vai ser suficiente para gerar um crescimento robusto no Brasil? Talvez, não. A minha preocupação, de qualquer forma, é que o País ainda está com um crescimento econômico medíocre e as reformas não avançam no ritmo que deveriam avançar, para aumentar a produtividade da economia. Esse é um problema crônico do Brasil. Houve avanços na agenda de reformas no governo Temer e no governo Bolsonaro. Mas talvez não o suficiente para alavancar o crescimento da economia de forma mais robusta. 

Como esse quadro político, econômico e social complicado, que o sr. mencionou há pouco, deve afetar o comportamento dos eleitores?

Acredito que os principais temas da campanha vão ser emprego e renda. A inflação, decorrente de um choque global nas cadeias de produção, puxou a alta dos alimentos e dos combustíveis, e ao lado da inércia doméstica gerou uma redução de renda importante. Então, acho que o candidato que for mais crível nesses dois temas vai ganhar a eleição. Tudo indica que, em 2022, a corrupção vai ser uma questão menos relevante. No ranking das prioridades da população, segundo as pesquisas, a corrupção hoje não tem um peso tão grande quanto no passado. 

Nesse cenário, como os principais candidatos devem se posicionar na campanha?

O Bolsonaro vai ter de argumentar que pelo menos do lado do crescimento e do emprego entregou mais do que na pandemia. Mas, se o ambiente de estagnação previsto para 2022 se confirmar, isso vai conspirar contra ele. O Bolsonaro também vai querer identificar Lula com o governo Dilma, Lula com Dilma e com o escândalo de corrupção que levou à queda de renda, ao desemprego e à recessão no País. O Lula vai dizer “eu fiz quando era presidente e posso fazer de novo”. Acho que o lema de campanha do Lula vai ser algo como o slogan do (ex-presidente americano Donald) Trump: “Let’s make Brazil great again”.  A campanha do Lula evidentemente vai prometer mais gastos, abandono do teto. Não vejo incentivos para ele apoiar a disciplina fiscal durante a campanha, o que deve gerar muita tensão do lado do manejo econômico. E a terceira via vai procurar se cacifar nesses temas também.

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O Moro pode subir nas intenções de voto se o Bolsonaro murchar mais
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Num exercício de futurologia, levando em conta o que o sr. está dizendo, quem tem mais probabilidade de ganhar a eleição?

Acho que o Lula é o favorito. O Bolsonaro chega na campanha com dificuldades para se reeleger. Não que ele esteja fora do páreo, mas está com uma taxa de aprovação de 30% e ainda vai pagar o preço do ciclo de aumento dos juros, que deve afetar a economia em 2022. Não vejo o Bolsonaro se recuperando a ponto de se reeleger. Até pode ser, mas vai depender muito da economia. De qualquer forma, eu o vejo forte o suficiente para poder chegar ao segundo turno. Ele tem uma base muito leal e é difícil um governante concorrer à reeleição e não ir para o segundo turno, de acordo com uma pesquisa comparativa que a gente fez de 256 eleições. Para mim, olhando os temas que mais preocupam os eleitores hoje – emprego e renda – e a redução da preocupação com a corrupção, o Lula deve ser beneficiado. Ele vai ser atacado pela Lava Jato, por tudo o que aconteceu nos governos do PT, mas o passivo dele é menor, porque as preocupações eleitorais mudaram. 

Para o sr., quais as chances de um candidato de terceira via conseguir superar a polarização que marcou a política brasileira nos últimos anos e chegar ao segundo turno?

Eu estou dando 20% de probabilidade de isso acontecer. É claro que a terceira via tem chance. Não é que não tem. Mas algo teria de acontecer para levar a uma queda maior dos índices de aprovação do presidente. Acredito que o (ex-juiz Sergio) Moro (pré-candidato do Podemos), por exemplo, pode subir nas intenções de voto se algo acontecer para o Bolsonaro murchar mais. O Moro está refém de um colapso do presidente. É possível que ele decole, mas acho improvável.

Quer dizer que, para alguém de terceira via chegar ao segundo turno, terá de ser em cima dos votos do Bolsonaro?

Sim. 

O Lula, então, pelas suas previsões, já está garantido no segundo turno?

Nada é certo nesta vida, mas acho que ele tem uma vaga quase garantida no segundo turno.

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O fato de Bolsonaro não respeitar a liturgia do cargo reforça sua posição de líder anti-establishment
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Muitas das promessas do Bolsonaro em 2018, como o combate à corrupção, a rejeição à “velha política” e uma liberalização mais acentuada da economia, ficaram para trás, gerando muita frustração em uma parcela significativa de seus eleitores. Até que ponto isso está influenciando as perspectivas do Bolsonaro nesta eleição?

Do meu ponto de vista, há duas coisas que estão prejudicando mais o Bolsonaro. A primeira é a má gestão da pandemia. Acredito que ele perdeu parte do eleitorado de centro pela maneira como conduziu a crise da covid-19, não abraçando a vacinação de maneira mais efusiva. O governo entregou as vacinas, mas ele não abraçou a campanha de vacinação. Ele está pagando um preço alto por isso. Está pagando também um preço alto por não ter conseguido ancorar as expectativas com essa inflação, que chegou no segundo semestre de 2021. O governo conduziu mal o processo. Depois, com a mudança do teto, desancorou de vez as expectativas, empurrando o Banco Central para aumentar juros e jogando o crescimento para trás em 2022. Por isso, acho que ele entra no jogo com uma rejeição maior. Em relação à corrupção é difícil mensurar o estrago. É claro que as investigações do círculo íntimo dele, da família, e a saída do Moro o prejudicam. Mas acho que não será isso que vai minar a capacidade de ele se reeleger. 

Na campanha de 2018, a gente teve uma rejeição grande da “velha” política” e o surgimento de outsiders. Nesta eleição, não há até agora um outsider no horizonte. Isso significa que houve um resgate da política tradicional no País?

Eu acredito que não. O desencanto e a falta de confiança nas instituições permanecem elevados. A diferença é que nós temos um presidente com perfil anti-establishment, que tem o apoio de 20% da população e ocupa parte deste espaço. Ele não age como um político tradicional. Tem desprezo pela liturgia do cargo e uma maneira de falar que demonstra autenticidade.

Será que podemos dizer que o Bolsonaro tem um perfil anti-establishment após a aliança que ele fez com o Centrão?

Sim, eu acho que o próprio fato de o presidente estar numa guerra aberta com alguns dos principais meios de comunicação valida esse perfil. O embate com o Supremo também faz parte desse perfil não tradicional que ele tem. A gente viu isso nas manifestações de 7 de setembro. Quando ele briga com o Supremo, faz embate com a mídia, ele se credencia como um presidente que não é tradicional. Ele não se conduz como um presidente que respeita a liturgia do cargo. Parte das razões pelas quais ele é tão criticado pelo centro político reforça a sua posição de líder anti-establishment. É claro que a aliança com o Centrão e os casos de corrupção prejudicam essa imagem. Mas, mesmo assim, a base dele não o abandonou, justamente porque ele tem esse perfil. Sem dúvida, é uma base muito menor do que há seis anos, mas ele não perdeu plenamente as credenciais de ser uma liderança anti-establishment, de não fazer parte do clubinho dos poderosos em Brasília.

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O eleitor que rejeitava a política tradicional não mudou de posição
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E quanto ao Lula, como o sr. vê o perfil dele?

O Lula também tem esse viés anti-establishment, mas à esquerda. Ele diz “o sistema me atacou e me colocou de forma injusta na prisão”, “eu represento os pobres” e coisas do gênero. O PT – a gente viu isso em 2018 – tenta construir um discurso de um partido que sempre lutou contra esse sistema. Independentemente de ser verdade ou não, estou dizendo que o Lula pega um pouco de carona naquele discurso de ser “o pai dos pobres” e contra o sistema dos ricos e poderosos que o colocou na prisão injustamente. Então, o Lula e o Bolsonaro, cada um do seu jeito, têm um apelo antissistema. Por isso, eu digo que, nesta eleição, o espaço para o aparecimento de um outro nome de fora do sistema é menor. Agora, isso não quer dizer que o eleitor que rejeitava a política tradicional seis anos atrás mudou de posição. Como já disse, a confiança nas instituições não voltou, de acordo com as pesquisas.

No Brasil, fala-se muito das eleições para a Presidência, mas a gente sabe que, sem o Congresso, é difícil o presidente realizar os seus planos.  Como o sr. vê as perspectivas para as eleições do Congresso?

 Acredito que a esquerda vai subir um pouco. Acho que o PT vai fazer uma bancada maior, numa eleição presidencial em que o partido tende a se sair melhor. Outros partidos à esquerda, como o PSB, também tendem a aumentar a bancada. Acho que o Centrão, com mais dinheiro em caixa, em função das emendas parlamentares e do fundo eleitoral, deve sair um pouco mais forte também. Agora, o antigo PSL e o DEM, reunidos no União Brasil, devem murchar um pouco. Além disso, muitos deputados eleitos na onda do Bolsonaro em 2018 devem ter dificuldade para se reeleger agora. 

Isso significa que se o Lula ganhar ele vai ter um Congresso mais amigável e se o Bolsonaro ganhar ele vai ter um Congresso menos amigável?

Acredito que o tamanho da esquerda não vai inviabilizar a capacidade do Bolsonaro governar, se ele vencer a eleição. Mas a oposição deverá ficar um pouco maior, sim. O centrão vai com quem ganha. 

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