Os mesmos erros

Melhor seria que fosse diferente. Mas a história mostra que segundo turno não permite nada mais sofisticado que a força bruta, a passionalidade e a desqualificação do oponente. Quem está atrás força passagem e agride com as armas de que julga dispor; quem está à frente fecha o caminho, administra a vantagem defendendo-se com o ataque. No foco dos estrategistas, está a imobilização do adversário; impedir que o outro amplie demais os votos de primeiro turno.

CARLOS MELO - CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR DO INSPER; ESCREVE AOS SÁBADOS SOBRE AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE 2012, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2012 | 03h04

A diminuição de alternativas, a paixão nas ruas e a virulência na TV são elementos para que o eleitor entre no jogo emocional, pouco ponderado. A disputa assume ares de uma final de campeonato cheia de fúria, visceral: torcedores manifestam-se de um modo tão rude quanto explosivo. Pingo vira letra! O eleitor observa tudo e fará sua escolha pelo "menos ruim", não exatamente pelo melhor. Perde-se qualidade no já escasso debate programático. Bom? Ruim? Simplesmente assim!

Mas é preciso ter o sentido de medida das coisas: não se pode passar do ponto, confinar a si mesmo, tornar-se refém da ousadia; coragem é uma coisa, temeridade é outra. Indiscutível que segundo turno é batalha que busca aumentar a rejeição do rival. Contudo, mesmo nesse afã, deve-se cuidar para não aumentar a própria rejeição. Sobretudo, é arriscado investir em temas morais, pois podem despertar reações contrárias e se voltar contra quem os mobilizou.

Ninguém, por exemplo, parece favorável ao aborto - pode-se ser a favor de sua descriminalização, mas não há quem o defenda como desejável. É uma contingência eticamente aceitável ou não; depende de crenças e valores. Colocá-lo sobre a mesa da eleição tangencia obscurantismos e retrocessos, enfraquece sua importância como assunto de saúde pública. Desperta embates cujo oportunismo pode suscitar revolta.

Igualmente, isso serve para questões relacionadas às opções sexuais. Majoritariamente, a sociedade não enxerga o tema como questão pública e, naturalmente, não admite a apologia das escolhas íntimas de cada um. Mas tampouco aprova ou é indiferente à homofobia: a intolerância não condiz com nosso caráter. Ela sempre foi punida pelo eleitor - o PT dos velhos tempos, de outras intolerâncias, por exemplo, confinava-se ao gueto.

Mais razoável, então, é circunscrever questões desse tipo ao campo dos direitos individuais, garantindo a natural diversidade social e a liberdade dos indivíduos. Temáticas assim delicadas exigem uma sofisticadíssima compreensão por parte do eleitor, mas sua percepção não captura nuances, nem considera detalhes. É um risco colocá-las no contexto emocional da disputa política, de modo passional.

A decisão, desde sempre discutível, de fazê-lo exigiria engenho e arte comunicativos; perspicácia política. Expressar com perfeição a crítica que se faz, quando ela de fato existir. Imaginar que não transborde de um público específico a quem se quer atrair - evangélicos, no caso - para outro mais amplo e, desse modo, que não assuma sentido diverso do pretendido é abrir a porta para que a esperteza coma o esperto.

Este parece ser o principal erro de José Serra: assemelhar-se aos equívocos da eleição presidencial - da qual, imaginava-se, tiraria lições. Passou do ponto, e isso o prejudica. Ao sentir o prejuízo, tentou se descolar do enredo mas já era tarde: sua campanha se contaminou, tornando-se presa de uma armadilha que, se não foi tramada por ele, tinha como premissa favorecê-lo.

Em vista disso, deu recibo, perdeu elegância e humor: enfrentou jornalistas e de forma estapafúrdia passou a apontar o vulto de José Dirceu como responsável por tudo de ruim que o cerca. Malha, hoje, o Judas que morreu ontem. Paradoxalmente, favorece o adversário. Em política, explicar-se é perder terreno. É extraordinário que, sozinho, candidato tão experiente consiga se complicar assim. Os erros de Serra têm sido os maiores aliados de Fernando Haddad.

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