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Os idos de março

Ao decidir que a definição oficial da candidatura à Presidência da República só acontecerá em março, o PSDB corre o risco de deixar que o tempo conspire em seu desfavor.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2013 | 02h23

A campanha eleitoral antecipada pode não ter sido um bom negócio para ninguém a não ser para Eduardo Campos, que teve, assim, a chance de "sair" de Pernambuco para assumir papel de destaque no cenário nacional e na sucessão presidencial de 2014.

Mas não resta dúvida de que é uma realidade contra a qual não adianta muito se rebelar.

Se a população ainda não está sob o domínio do fato eleitoral, o mundo político só pensa nisso, só atua em função disso.

Enquanto os tucanos criaram uma dúvida sobre a candidatura de Aécio Neves onde antes havia a certeza, os adversários tocam a vida. A presidente Dilma Rousseff à vontade no uso (abuso?) das prerrogativas públicas do cargo em prol de projeto partidário.

Eduardo Campos e Marina Silva não têm a mesma vida boa, não dispõem da estrutura ao longo dos anos e de duas presidências de República construídas pelos tucanos. Em compensação, são muito menos pressionados pela necessidade da vitória e contam com a marca da novidade.

Seria um exagero dizer que estão "relax", mas, ao contrário dos outros - notadamente do PSDB -, tudo o que lhes vier é lucro e, para aumentar o capital, a cada dia criam um fato.

Ainda que seja pelo viés nem sempre positivo do destaque às divergências e contradições entre os dois grupos, figuram diariamente no noticiário político.

Isso quer dizer o seguinte: quando março chegar e os tucanos finalmente anunciarem (se é que não haverá o adiamento de sempre) quem será o candidato, os adversários já estarão a léguas de distância. Segundo Eduardo Campos, a partir de janeiro a dupla já dará sinais concretos de que o titular da chapa será ele mesmo.

O senador Aécio Neves anuncia que lançará sua "agenda" em dezembro. Dilma faz a dela diariamente e a aliança PSB/Rede põe desde já em prática uma pauta de discussão homeopática do programa conjunto de maneira a deixar o assunto permanentemente em destaque.

Estão, portanto, governo e assim chamada sua costela-de-adão azeitados. Os tucanos ficam emperrados. Culpa de José Serra que, a despeito da preferência do partido, insiste em deixar no horizonte a hipótese de candidatura?

Mais ou menos. Feita a proposta como uma das condições para ele permanecer no PSDB, foi aceita por Aécio, presidente do partido.

Sendo assim, aceitou dar margem à dúvida e à possibilidade de mudança, além de autorizar por vias transversas que se dissemine em público a divisão com Serra insinuando dia sim outro também que está no páreo e gente proeminente do partido afirmando que o tempo dele passou.

Se não determina o desfecho, tal cenário tampouco desenha um bom começo.

Passado condena. Ironias do destino marcaram presença ontem na sessão solene do Congresso em homenagem aos 25 anos da Constituinte de 1988. A mais eloquente: Lula da Silva, cujo partido hesitou em assinar a Constituição, exaltando o papel de José Sarney que, como presidente, na época dizia que a Carta tornaria o País ingovernável enquanto o governo dele tornava a inflação incontrolável.

Hoje, duas décadas e meia depois, ambos celebram - e melhor que seja assim - junto com o Brasil uma Constituição avançada na garantia dos direitos do cidadão sem, contudo, levar em conta as respectivas contribuições para a permanência do País numa situação política (não institucional, há diferença) absolutamente atrasada.

O vale-tudo da violência urbana sob o biombo glamouroso de "protestos", se não tem tudo a ver, deve muito à falta de limites e de preservação de valores caros à lei e à civilidade de determinados governantes e representantes parlamentares.

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