Os efeitos para 2014

Em eleições municipais, o eleitor olha gestão; nas presidenciais, faz política. Com a imprecisão de toda a síntese, esta parece aplicável ao pleito que o 2.º turno encerrou ontem. Ele mostra as eleições municipais imunes ao jogo político nacional, em diagnóstico de mão única, pois seus resultados, ao contrário, já influem nos movimentos vinculados à sucessão presidencial de 2014 - e até mesmo na de 2018.

João bosco Rabello, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2012 | 03h05

Ainda que o conceito de boa gestão seja morada de cada eleitor, onde essa avaliação foi majoritária, de modo geral, deu-se a reeleição. Exceções à regra certamente encontrarão explicação no apoio de governadores bem avaliados a gestores nem tanto, mas favorecidos pela escora maior.

O eleitor insatisfeito escolheu novos perfis ou, à falta deles, recorreu a antigas lideranças que condenara ao purgatório, para mais uma chance. Caso de Aracaju, por exemplo, onde o veterano João Alves (DEM) conseguiu uma vitória esmagadora.

Ocorre com frequência essa espécie de rodízio, ainda que, às vezes, possa vir travestido do novo - caso de São Paulo, onde o conceito é estritamente etário e repete o revezamento histórico entre o PT e o PSDB.

Aqui houve renovação de quadro, mas não da política partidária que Fernando Haddad representa. Seu perfil pouco característico do PT acabou palatável ao eleitor tucano insatisfeito com a repetição do velho filme e personagens.

A considerar a influência da eleição municipal na presidencial, o 2.º turno amplia e reafirma o fortalecimento do governador de Pernambuco Eduardo Campos, principal beneficiário das vitórias estratégicas de seu partido, o PSB, algumas delas impondo-se à vontade imperial do ex-presidente Lula sobre seus aliados.

O partido de Campos venceu em capitais estratégicas como Belo Horizonte, Recife e Fortaleza, também em Cuiabá, em confronto direto com o PT, que custou o rompimento da aliança entre ambos. Fez ainda Porto Velho e, no plano das cidades médias, venceu em Campinas, reduto petista. No Rio, venceu em Duque de Caxias e Petrópolis, importantes redutos peemedebistas.

E é nesse contexto que o PSB ganha capilaridade, visibilidade nacional e dimensão política, fatores que o beneficiam com maior autonomia de movimentos e lhe impõem exercício mais pragmático na administração de suas alianças.

O partido segue a corrente natural que estende os movimentos de independência do partido às cidades em que for perceptível a possibilidade de voo solo. É a regra natural da política que foge ao controle de cúpulas, porque determinada pelos interesses regionais.

É um cenário que dita também a necessidade de diversidade nas alianças, o que se traduz por uma gradual renovação de parceiros e redução da centralização das negociações numa só grande legenda, ainda que esta, no caso do PT, tenha o poder federal como forte polo de gravidade a atrair e sustentar linhas auxiliares.

Ao lado de Aécio Neves, o governador de Pernambuco consolida o protagonismo na cena presidencial ensaiado no 1.º turno: qualquer que seja seu papel, as sucessões de 2014 e 2018 passam por ele e por seu PSB.

No caso de Aécio, a derrota de José Serra em São Paulo abre o caminho para uma candidatura que andou sempre à base do conflito interno e que agora pode se firmar sem contestações. Mais que isso, crismada pela confirmação do erro do rival partidário em recusar a renovação que Lula impôs ao PT com êxito.

Campos e Aécio se beneficiam ainda das derrotas da presidente Dilma e do ex-presidente Lula em Salvador e Manaus, onde ambos empenharam prestígio e popularidade e foram derrotados por adversários históricos.

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