Os dois lados do coração da presidente

Análise: José A. Guilhon Albuquerque

É FELLOW NO CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS DA UNICAMP, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2012 | 03h07

A questão de saber qual a relevância da visita da presidente Dilma a Cuba, tendo em vista nossos objetivos de política externa, deve ser precedida pela questão de saber quais os objetivos domésticos da viagem. A melhor maneira de encarar essa questão é refletir sobre as razões que levaram a presidente do Brasil a optar por visitar o Fórum Social e Cuba em vez do Fórum Econômico Mundial em Davos. Sobretudo sabendo-se que não se trata de uma alternativa excludente.

Não é qualquer um que pode ser convidado de honra a pronunciar um keynote speech - uma conferência especial - num fórum geralmente frequentado pelos grandes deste mundo. E Dilma era ansiosamente esperada, não apesar de poder frequentar livremente o Fórum Social ou ser recebida como compañera pelos irmãos Castro, mas porque poderia sentir-se tão à vontade em Davos como em Cuba, tal como Lula.

Também não soaria ofensivo aos olhos do brasileiro comum, sobretudo a essa parte mais desvalida da população a quem Dilma deve sua vitória eleitoral, que nossa presidente fosse alvo de homenagem tão elevada. E não se trata de uma homenagem vã. A expectativa criada na comunidade internacional, sobretudo entre os que decidem no dia a dia os rumos da economia global, era a de aprender alguma coisa, com alguém que decide no dia a dia os rumos da sexta maior economia do mundo.

Salvo setores do PT e da esquerda mais inconformado com o fim do bolchevismo, e ofuscados pelo futuro inglório de Cuba e da dinastia castrista, que poderiam ressentir-se com a visita a Davos e não se contentariam com os afagos de Dilma em Porto Alegre e Havana, a imensa maioria petista - e digo isso como um elogio - ficaria satisfeita com os dois destinos.

Uma boa parte certamente veria o dever cumprido no roteiro latino-americano e sentiria orgulho com a visita ao Velho Mundo.

Mas o governo Dilma acabou de criar dois contenciosos com o PT. O primeiro resultou da opção "técnica" da presidente para o Ministério de Ciência e Tecnologia, em vez de atender à reivindicação do PT para a pasta. Essa decisão "técnica" foi uma tentativa de se furtar à decisão política de optar entre manter um petista em substituição a Aloízio Mercadante, ou "devolver" a pasta ao PSB, que se considera seu dono.

O outro contencioso é o "affaire" Haddad. Independentemente da palatabilidade do ex-ministro junto ao PT paulistano, é óbvio o desconforto entre seus grandes eleitores - a começar por Marta Suplicy - com a sem-cerimônia com que Lula lhes enfiou goela baixo um candidato de paraquedas.

Como todo esse ressentimento não pode se expressar contra o "Pai", é normal que se volte contra a regente. Quanto ao objetivo doméstico de aplacar o PT, não creio que possa ser alcançado com o simples cumprimento do que é tido como um dever: defender o que a maioria de seus membros considera a única democracia real do continente.

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