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Os dois Brasis

Direita solidamente no Sul e Centro-Oeste, esquerda definitivamente no Nordeste

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2018 | 05h00

Ao empurrar a eleição para dois candidatos que representam os extremos, a polarização do processo político também divide claramente o Brasil, com a esquerda cada vez mais consolidada no Nordeste (27% do total do eleitorado) e a direita impondo-se no Sul (15%), com reflexo direto na eleição para a Presidência e para os governos estaduais.

Jair Bolsonaro (PSL) disparou em todas as regiões e chega a 37% no Sul e a 36% no Centro-Oeste, dois arraigados redutos da direita. Ratinho Júnior (PSD) no Paraná, Ronaldo Caiado (DEM) em Goiás e Mauro Carlesse (PHS) em Tocantins têm forte chances de vitória para seus governos já no primeiro turno.

No Nordeste, a situação se inverte. Fernando Haddad (PT) já lidera e, apesar da crise de Dilma Rousseff, que afetou diretamente os Estados, cinco dos governadores têm grandes chances de se reeleger no primeiro turno. Três são do PT: Rui Costa (BA), Camilo Santana (CE) e Wellington Dias (PI). O quarto é Flávio Dino (MA), do PCdoB. E o campeão é Renan Filho (AL), do MDB, com apoio do PT e de Lula.

Vão-se criando assim dois Brasis. Um se alinha com o discurso da bala, da segurança, da antipolítica, do antipetismo e do conservadorismo de costumes. O outro é grato às benesses sociais, suscetível às promessas populistas, desconhece a importância do equilíbrio fiscal, acha natural o aparelhamento do Estado e releva a pregação contra a corrupção. 

No Sudeste, com 43% do eleitorado e as três maiores economias do País – São Paulo, Rio e Minas –, Bolsonaro já atinge 30%. Com a decisão do governador Paulo Hartung de não disputar a reeleição, Renato Casagrande (PSB) pode se eleger em primeiro turno no Espírito Santo, um exemplo de gestão, mas no resto tem de tudo, inclusive surpresas. 

Bolsonaro engole os vestígios de esquerda no Rio, onde Eduardo Paes (DEM) lidera para o governo, e também a hegemonia do PSDB em São Paulo, onde João Doria empata com Paulo Skaf (MDB) e Geraldo Alckmin não deslancha para a Presidência. 

Outra surpresa é a divisão em Minas. O tucano Antonio Anastasia tem posição confortável para voltar ao governo e a petista Dilma está à frente para o Senado, dois anos depois do impeachment e de manter os direitos políticos graças, por exemplo, a Renan Calheiros, regiamente recompensado hoje na eleição do filho para o governo e da sua própria para o Senado em Alagoas.

Aliás, o MDB do presidente Michel Temer está bem na foto eleitoral, apesar de o partido ser um dos mais atingidos pelas prisões da Lava Jato e de Temer ser imbatível em impopularidade. Além de Renan Filho, candidato a campeão de votos no País, também Helder Barbalho pode se eleger em primeiro turno no Pará. Vem a ser filho de Jader Barbalho, outro ex-presidente do Senado bem enrolado na Justiça.

Tem-se, portanto, a direita solidamente no Sul e no Centro-Oeste e a esquerda definitivamente no populoso Nordeste, com o Norte mantendo hegemonias familiares e o Sudeste numa barafunda. A única coisa inquestionável é que Jair Bolsonaro, apesar de tudo, e de todos os riscos, lidera com folga em quatro das cinco regiões do País e nos Estados mais populosos. Isso tem cheiro de Fernando Collor em 1989, mas o PT também tem suas armas (eleitorais, frise-se).

Resta saber que tipo de movimento, ou de reação, começa a se desenhar com o manifesto de alerta de Fernando Henrique Cardoso, endossado por intelectuais tucanos. O Brasil está dividido entre a direita bolsonariana e a esquerda petista. O que isso projeta para o futuro? E vai ficar por isso mesmo? Ainda teremos muitos solavancos durante as eleições, mas principalmente depois. Apertem os cintos!

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