Ed Ferreira/Estadão
Ed Ferreira/Estadão

Os decanos vão deixar o gabinete

Bonifácio de Andrada (DEM-MG) e Miro Teixeira (Rede-RJ) vão interromper 40 anos de mandato

Adriana Ferraz, Marianna Holanda, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2018 | 05h02

São quase 40 anos ininterruptos como deputado federal. Desde 1979, Bonifácio de Andrada (DEM-MG), de 86 anos, renova seu mandato e mantém a tradição da família na política, que vem do tataravô: José Bonifácio de Andrada e Silva, considerado um dos patriarcas da Independência. Mais novo, porém ainda mais experiente, com 11 mandatos, Miro Teixeira (Rede-RJ), de 72 anos, também tem história na Câmara dos Deputados e, assim como Bonifácio, se prepara agora para fazer as malas. Na contramão da grande maioria dos parlamentares, os decanos não tentarão a reeleição.

“Sou a quinta geração de políticos da minha família e acho que 40 anos, em dez mandatos, não é pouca coisa. Mas agora penso que tenho de abrir caminho para as próximas gerações”, diz Bonifácio. Integrante da família com maior tradição no parlamento brasileiro – são quase dois séculos de história –, ele quer passar o bastão para os herdeiros. 

O parlamentar afirma já ter duas opções para lançar em outubro em seu lugar. O filho Lafayette de Andrada (PRB-MG) é o primeiro da fila. Atual vice-presidente da Assembleia Legislativa mineira, o deputado estadual deve tentar se mudar para Brasília em 2019 e pode ter como companhia o sobrinho Gustavo de Andrada, médico que Bonifácio diz levar jeito para a política.

“Quem sabe um deles não vem para o apartamento onde eu moro? Esse imóvel aqui já foi do meu pai, quando ele foi presidente da Câmara, e pode ser do meu filho no futuro”, diz o parlamentar que após 20 anos trocou o PSDB pelo DEM. A decisão se deu após Bonifácio contrariar os chamados “cabeças-pretas tucanos”, favoráveis ao prosseguimento das denúncias apresentadas ano passado pela Procuradoria-Geral da República contra o presidente Michel Temer. 

Ligado ao grupo do senador Aécio Neves (PSDB-MG), Bonifácio foi o relator na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara da segunda denúncia contra Temer – por organização criminosa – e deu um parecer favorável ao presidente repleto de críticas ao Ministério Público, que segundo ele, “estava mancomunado com o Judiciário” e levou desequilíbrio na relação entre Poderes”.

Apesar de ter desistido de Brasília, Bonifácio não vai ficar longe da política. “Ainda posso ser suplente de senador ou, quem sabe, vice-governador”, diz.

Governador. Miro Teixeira decidiu abrir mão de tentar o 12º mandato não consecutivo para disputar o governo do Rio de Janeiro, trilhando caminho semelhante ao que fez em 1983, quando perdeu a mesma disputa para Leonel Brizola. Após 35 anos daquela derrota, Teixeira vive um momento distinto. Quando foi eleito pela primeira vez era um jovem jornalista de 25 anos que vivia a política em plena ditadura militar. Hoje é o mais experiente da Casa e afirma que sai por “necessidade”. 

“Num momento de grave situação no Estado, que vive seu pior momento, me sinto na necessidade de sair. O que não impede que eu deixe a Câmara com saudades”, afirma. 

Em quatro décadas de vida pública, Miro passou por sete partidos – MDB, PP, PDT, PPS, PT, PROS e Rede. Hoje, diz se dedicar a costurar alianças para sua pré-candidatura. Assim como a presidenciável Marina Silva, se não fizer alianças não terá vaga nos debates de TV.

Para o decano, o primeiro mandato “é de aprendizado” e “o mais difícil é sempre o próximo”. Numa retrospectiva, lembra dos momentos marcantes que passou, como a Constituinte, o escândalo dos anões do orçamento e os impeachments de Fernando Collor e de Dilma Rousseff, além das denúncias contra Temer. “Estamos vivendo num período de sensação do fim da impunidade.” 

Sobre não se reeleger, Miro diz que a decisão está tomada, mas que, “psicologicamente não está preparado”. “A Câmara não vai se livrar de mim.” 

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