Os anseios de cada geração

O Brasil se livrou da ditadura e da inflação, reduziu a pobreza e agora quer viver melhor

Edgar Maciel, O Estado de S. Paulo

29 de setembro de 2014 | 03h00

Nas últimas cinco décadas o Brasil lutou por direitos humanos, por leis trabalhistas, foi às ruas pelas Diretas Já, destituiu um presidente e superou uma inflação astronômica nos anos 90. Estabilizou-se, criou programas sociais que reduziram a pobreza e melhorou alguns índices na educação. Virou até o “queridinho” dos investidores estrangeiros por alguns anos. Esses avanços tiveram em comum a mobilização por conquistas que, a rigor, eram de um País inteiro, de diferentes classes, lugares ou idades. Nos últimos 15 meses, protestos e movimentos voltaram às ruas - e a cruzada da vez é mais complexa. É a constatação de que a democracia em si não basta. Ela tem de se livrar da corrupção e abrir caminho para a qualidade de vida.

As previsões para os próximos anos, advertem pesquisadores, direcionam a sociedade brasileira para uma onda de “movimentos pós-materialistas”. “As manifestações de junho de 2013 apontaram para isso. Quando uma estabilidade ocorre, as pessoas tendem a deixar para trás reivindicações de subsistência e avançamos em temas que lutem por mais liberdade e capacidade de decisão sobre suas vidas”, afirma José Álvaro Moisés, cientista político e professor da USP.

Ganham espaço, no novo cenário, as discussões sobre mobilidade urbana, habitação digna, preservação do meio ambiente, reivindicações ligadas a gênero e diversidade sexual. “As pessoas querem viver melhor, mas também querem seus direitos individuais colocados em pauta pelos governos, sendo atendidos e respeitados”, afirmou o cientista política Pedro Fassoni.

Esses novos anseios se moverão por uma nova forma de participação política, uma democracia virtual. Atualmente, a internet já é palco de debates, opiniões políticas, consultas e denúncias de irregularidades no poder público. Mas ainda não se tornou um agente efetivo de decisões. “A internet está sendo mal utilizada. Há uma série de movimentos propondo que o meio virtual seja aproveitado como uma renovação da democracia. Se não para consultas diretas, mas como um meio de formação de demandas e prioridades”, disse Moisés.

Partidos. A sociedade se mobiliza, mas os partidos políticos resistem à ideia de se adaptar a esse processo de transição. Para o professor de História Moderna da Universidade Federal do Rio de Janeiro Francisco Carlos Teixeira da Silva, o perigo desse descompasso é o crescimento da aversão à política. “Antigamente, as pessoas sabiam quais eram seus representantes e os partidos eram mais ativos. Agora, acontece uma constatação de que a política é suja, ruim e isso pode prejudicar a viabilização das demandas da sociedade.”

Nas próximas décadas, a evolução dessas prioridades que vieram à tona nos últimos anos dependerá de como os brasileiros se servirão das ferramentas democráticas. “Nenhuma tendência é linear e podemos ver regressões dos direitos atuais. Vai depender da história que a sociedade quer construir”, 

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