Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Orlando Silva adotou o antirracismo como tema de campanha e sofreu preconceito

Candidato do PCdoB recebeu ataques e ofensas nas redes e chegou a registrar um Boletim de Ocorrência em uma delegacia; ex-ministro se frustrou com os poucos debates na TV

Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

Minutos antes de iniciar um discurso na tarde da última quarta-feira, o candidato Orlando Silva (PCdoB) olhou para o céu e viu uma nuvem carregada de chuva sobre sua cabeça. Estava em frente ao centro de distribuição dos Correios na Vila Leopoldina ao lado de cinco colegas do movimento sindical e uma equipe de campanha que, juntos, somavam cerca de 12 pessoas na calçada enquanto o movimento da portaria seguia normalmente. Em voz baixa, perguntou-se sobre a chance da água cair ali mesmo, enquanto falava. 

Orlando e os sindicalistas discursavam com duas caixas de som durante o horário de almoço em meio à entrada e saída dos funcionários, a maioria sem reconhecer a presença do candidato. Um grupo de auxiliares de limpeza acomodava-se distraído em bancos de madeira ao lado do ato, com a atenção voltada para telas de celular. Em altos decibéis, ouviam-se críticas à terceirização de serviços, à precarização das condições de trabalho, promessas para melhorar as oportunidades de emprego na cidade, e pedidos de voto. O tempo ficou firme durante os dez minutos de discurso do candidato e as horas seguintes: a nuvem anunciava um temporal que caiu apenas no fim do dia. 

Aos 49 anos, escolhido para a primeira candidatura do PCdoB à Prefeitura de São Paulo em seis décadas, Orlando Silva teve uma campanha eleitoral que contrasta com sua projeção em Brasília. Durante a existência do Ministério do Esporte, que se encerrou em janeiro de 2019, Orlando foi seu ocupante mais longevo. Assumiu a pasta interinamente aos 34, como ministro mais jovem da esplanada, e atravessou os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff no cargo. 

Depois de ser suplente de vereador na Câmara Municipal de São Paulo, elegeu-se deputado federal por duas vezes consecutivas, em 2014 e 2018. Foi relator de alguns projetos com visibilidade neste ano, como a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) e o programa emergencial de manutenção do emprego, que garantiu o pagamento de benefícios a trabalhadores que tiveram reduções salariais em meio à pandemia. 

Nas pesquisas eleitorais à Prefeitura, no entanto, Orlando marca entre zero e 1% das intenções de voto. Ele tem dito a colegas nas últimas semanas que sua maior frustração na campanha foi a participação em poucos debates, uma de suas apostas para melhorar o desempenho. 

“É quando você tem um ‘nivelamento de oportunidades’, e isso para mim foi uma coisa meio frustrante”, conta o candidato. “Nós somos ‘lisos’, não ia ter muito dinheiro, a gente sabia disso. Que não ia ter tempo de TV, a gente sabia. Agora, não ter tido debates na TV acabou prejudicando um pouco.” 

A pandemia do novo coronavírus fez com que ele se sentisse obrigado a ser um candidato distante – até nos raros momentos de celebridade. Há duas semanas, em uma visita ao Mercado Municipal de São Miguel Paulista, na zona leste, eleitoras tentaram abraçá-lo e tirar fotos ao seu lado. Nos corredores estreitos e lotados do mercado, ele se afastou num susto e fez o alerta: “olha o distanciamento, gente”. Cumprimentou todos, mas de forma “responsável”. 

Dois dias depois, veio um susto maior e a paralisação forçada das atividades. Seu coordenador de campanha e a esposa foram diagnosticados com covid-19, levando-o a brecar o ritmo da corrida eleitoral e cancelar compromissos. Entre 14 integrantes da equipe, sete testaram positivo. 

“Ali talvez tenha me assustado um pouco mais, então eu ‘tirei o pé’”, conta. “Eu suspendi a agenda, porque é muito grave. Imagina eu virar um ‘agente’ de contaminação?”

Como dois testes apontaram resultado negativo nele próprio, Orlando retomou as agendas com um time reduzido, parcialmente em trabalho remoto. As agendas esvaziadas foram uma constante, ele diz, inclusive pela insistência em seguir protocolos de segurança e não entrar em contradição. Em locais fechados, o número de pessoas presentes era, no máximo, a metade da capacidade total. 

Se escapou por pouco de um encerramento precoce da campanha, o candidato também saiu às ruas com atraso. Suas primeiras agendas externas ocorreram no fim de setembro, quando outros candidatos mais bem colocados já visitavam diariamente vários bairros da cidade há semanas. “Jogo é jogo, e treino é treino”, brincou em seu primeiro evento presencial, para justificar a espera. 

Com um dos poucos negros na disputa eleitoral, o PCdoB escolheu o antirracismo como principal tema de campanha. Em um clipe, Orlando apareceu na favela vestindo o lema “vidas negras importam” na camiseta e o punho fechado erguido no ar, o símbolo de resistência dos Panteras Negras contra o racismo a partir da década de 1960. Seu jingle foi um samba com o título Prefeito Preto Preparado e participação de Leci Brandão, sambista e deputada estadual pelo PCdoB, que exaltava “um Silva como nós”. Ela também narrou peças de propaganda sobre a desigualdade entre negros e brancos no mercado de trabalho, numa comparação com o cargo de prefeito. 

Uma mensagem forte e o peso histórico do partido atraíram apoio de artistas, ativistas do movimento negro e integrantes de centrais sindicais mas, na terra que já foi chamada de “túmulo do samba”, não conseguiu provocar crescimento nas pesquisas. 

A campanha não saiu ilesa do preconceito que abordou nas próprias peças de propaganda. A página do candidato nas redes sociais passou receber ataques com ofensas racistas e referências à sua aparência e sua pele. Ele chegou a registrar um Boletim de Ocorrência em uma delegacia, em que identifica autores e pede uma investigação do crime de injúria racial. 

Apesar das nuvens carregadas que se formaram sobre as agendas de campanha, Orlando diz que se divertiu nas últimas semanas. Foi sua primeira eleição a um cargo majoritário, mas a tarefa de tirar aprendizados da experiência, ele diz, foi complicada pelo momento extraordinário da pandemia. 

“Estou fazendo com alegria e me divertindo, para falar a verdade, conhecendo muita gente”, conta o candidato para, em seguida, voltar às dificuldades, com as mãos no ar e com o olhar no vazio. “Agora é isso, o distanciamento: você não pode abraçar as pessoas.”

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