Oposição ensaia resgatar discurso da privatização

FHC lidera movimento para que PSDB, DEM e PPS defendam parcerias com empresariado e utilizem o discurso em 2014

JOÃO DOMINGOS / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h07

Os partidos de oposição pretendem resgatar suas bandeiras históricas para tentar fazer a campanha de 2014 para a Presidência da República em pé de igualdade com o PT. Em destaque, o programa das parcerias com a iniciativa privada para grandes obras de infraestrutura, como portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, hidrovias e hidrelétricas.

À frente do movimento pelo resgate das bandeiras está o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Terminado o 2.º turno da eleição em que o petista Fernando Haddad derrotou o ex-governador José Serra (PSDB) na disputa para a Prefeitura de São Paulo, Fernando Henrique passou a pregar a renovação dos programas de governo dos partidos de oposição.

Uma renovação que, a rigor, significa o resgate daqueles projetos que, na visão de PSDB, DEM e PPS, o PT lhes tomou.

No início da semana o ex-presidente conversou sobre o assunto com o ex-governador Alberto Goldman, primeiro vice-presidente do PSDB. "Concluímos que do ponto de vista dos resultados do que fizemos, o governo de FH foi absolutamente vitorioso", disse Goldman ao Estado. "O PT adotou nosso programa em sua integralidade. Procurou disfarçar, mudar o rótulo, trocar o invólucro. Mas abraçou e pôs em prática todas as nossas políticas, da rede de proteção social às parcerias com a iniciativa privada na infraestrutura."

Isso causou um problema de fato para a oposição, avaliaram Fernando Henrique e Goldman. "Nosso grande desafio é levantar nossas bandeiras e mostrar para a opinião pública que tudo começou com o governo de Fernando Henrique, que teve à frente o PSDB e o DEM, com nosso programa de privatizações. Temos o desafio de mostrar que fomos tão vitoriosos que se apropriaram de nossas ideias como se fossem deles. Pior: só foram perceber que era preciso fazer as parcerias com a iniciativa com dez anos de atraso, o que causou um prejuízo imenso para o Brasil."

Presidenciável. Candidato mais provável das oposições, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) tem conversado com os economistas André Lara Resende, Armínio Fraga e Edmar Bacha, que tiveram papel fundamental no programa de privatizações do governo FHC - como o das telefônicas e da Vale, além da federalização dos bancos estaduais. Aécio já se disse pronto para ser o candidato. Deverá ser o próximo presidente do PSDB, o que lhe garantirá palanque duplo: no Senado e no comando do partido.

A ideia das oposições é que já a partir de 2013 Aécio Neves comece a aparecer mais como o nome delas para a disputa presidencial. Entre as várias iniciativas nesse sentido, os programas do PSDB, do DEM e do PPS deverão mostrar o senador como o candidato que, com a bandeira das parcerias do setor público com a iniciativa privada, vai enfrentar o governo do PT. Nos três partidos há a percepção de que, desde 2002, é a primeira vez que surge um nome natural para a disputa. As duas candidaturas de Serra, em 2002 e 2010, e a de Geraldo Alckmin, em 2006, foram impostas de alguma forma, no entender deles. E se perderam ao longo das campanhas.

Um dos erros mais lembrados é a forma envergonhada com que foi feita a defesa das privatizações realizadas no governo FHC. No caso da campanha de Alckmin, pressionado pelo PT, ele chegou a aparecer no programa eleitoral vestido com uma jaqueta com os símbolos do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal e da Petrobrás. Jurou que não venderia as empresas. Avalia-se que Alckmin perdeu um grande tempo se defendendo, quando poderia ter atuado no ataque.

Presidente do segundo maior partido da oposição, o DEM, o senador José Agripino Maia (RN) acredita que o bloco vai se fortalecer se conseguir explicar para os eleitores que o PT copiou os programas da oposição. "O PT já esgotou o modelo do Bolsa Família, programa que ajudou a reeleger Lula, em 2006, e a eleger Dilma, em 2010", avalia o senador. "Agora, que o Bolsa Família já não deverá servir para lhe render votos, o governo começou a copiar os programas da oposição. Anunciou a privatização dos aeroportos e a concessão de rodovias e ferrovias. Tá na cara que o PT exauriu tudo o que tinha. Não tem mais onde buscar coisa nova. Por isso, copia os programas da oposição. É a hora de mostrarmos que temos muito mais condição do que eles para fazer. A administração deles é capenga."

O presidente do PPS, deputado Roberto Freire (SP), aposta no aprofundamento da crise econômica. "A oposição terá apenas de aguardar, porque em 2014 a avaliação da presidente não será a que tem hoje. Ela não tem como resistir à crise", acredita.

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