Oposição acusa ministro de mentir à Câmara ao negar elo com dono de ONG

O titular da pasta do Trabalho, Carlos Lupi, presidente licenciado do PDT, teve sua situação política agravada ontem e pode deixar o cargo antes mesmo da reforma ministerial prevista para ocorrer no início do próximo ano.

CHRISTIANE SAMARCO, KARLA MENDES / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2011 | 03h04

Reportagem publicada pela revista Veja deste fim de semana afirma que Lupi viajou pelo interior do Maranhão a bordo de uma aeronave agenciada por Adair Meira, dirigente da Pró-Cerrado. Em audiência no Congresso na última quinta-feira, Lupi negou relação com Meira: "Eu não tenho relação nenhuma com seu Adair", disse ele, em depoimento aos deputados. Até ontem à noite, a assessoria da pasta não havia negado que Lupi viajara ao lado de Meira (leia texto nesta página).

Segundo a revista, Lupi e uma equipe do ministério, incluindo o ex-secretário de Políticas Públicas de Emprego, Ezequiel Nascimento, e Meira, teriam passado, em viagem oficial, por sete cidades do Maranhão em dezembro de 2009 para o lançamento de um programa de qualificação profissional no estado.

Ontem, o Planalto tentou demonstrar tranquilidade em mais um capítulo da crise envolvendo o ministro, que declarara publicamente que só sairia do cargo "à bala". Oficialmente, a assessoria do Planalto disse que "o assunto não estava sendo tratado" no âmbito na Presidência da República. "Essa operação-abafa do governo não deu certo porque ele não saiu do foco", disse o líder do DEM na Câmara, ACM Neto (BA), ao anunciar um plantão das oposições em Brasília já partir do dia 15, para pedir a saída de Lupi do cargo.

"O feriado não paralisará a oposição e ninguém pode se manter no ministério à custa de uma declaração de amor à presidente Dilma, porque o governo é dela e ela será cobrada por isso", afirmou o deputado.

Na nota oficial divulgada ontem em resposta à Veja, o ministro diz que foi o PDT do Maranhão quem providenciou o avião, mas não contestou a presença de Adair em sua comitiva.

O deputado Antônio Reguffe (PDT-DF) avalia que as denúncias são "gravíssimas" e precisam ser investigadas a fundo, "doa a quem doer". Reguffe lembra que, desde o início da crise, tem defendido o afastamento do ministro durante a apuração do caso. "Esta seria a melhor solução para ele, para o PDT, para o governo e para o Brasil", disse.

"Se ele mentiu à Câmara, faltou com o respeito, com o decoro, e ainda incorreu em crime de responsabilidade", adverte o líder do DEM no Senado, Demóstenes Torres (GO), para quem a situação "extrapolou a política e já virou caso de cadeia". O líder do PSDB na Câmara, Duarte Nogueira, acredita que, nesse ritmo, a sucessão de denúncias provocará pressão crescente da sociedade pela demissão de Lupi: "Agora achamos que será obrigado a deixar o ministério porque está ficando claro que o ministro é o problema".

O líder tucano era um dos presentes à Comissão de Fiscalização, quando o deputado Mendonça Filho (DEM-PE) questionou o ministro sobre o uso do avião de um dos dirigentes da Fundação Pró-Cerrado, fato que o parlamentar considerava grave. Lupi informou que desconhecia o dirigente da entidade e que nunca usara o jatinho dele. "Não tenho relação pessoal com o seu Adair. Não sei onde ele mora e nunca andei em avião dele. Já andei em aviões que o PDT alugou para eventos da legenda. Todos são contabilizados e as contas prestadas." Segundo a revista, meses depois de Adair viajar com Lupi, ainda em 2009, as ONGs dele ganharam um contrato com o Ministério.

O único líder da base governista a defender Lupi foi Cândido Vaccarezza (PT-SP). "Não tenho conhecimento dos fatos, mas tenho o ministro na conta de um homem sério e acredito na versão dele à Câmara", disse.

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