Operação prende 27 por espionagem contra políticos

Federação Paulista de Futebol foi alvo da ação da PF, que indiciou o presidente Marco Polo Del Nero por crime de divulgação de segredo

FAUSTO MACEDO, FERNANDO GALLO, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2012 | 02h09

A Polícia Federal prendeu ontem 27 suspeitos - inclusive policiais federais, civis e militares - de envolvimento com duas organizações criminosas que se instalaram em cinco Estados e no Distrito Federal, uma voltada para a prática de crimes financeiros, evasão de divisas e lavagem de dinheiro, outra para quebra de sigilo e espionagem contra políticos, empresários e magistrados.

A Operação Durkheim mobilizou cerca de 400 agentes e delegados que vasculharam 87 endereços comerciais e residenciais. Até a Federação Paulista de Futebol (FPF) foi alvo da missão - o gabinete do presidente da entidade, advogado Marco Polo Del Nero, foi inspecionado, assim como seu escritório de advocacia. Ele foi conduzido para indiciamento na Delegacia de Combate a Ilícitos Financeiros, por crime de divulgação de segredo.

A PF identificou, até aqui, 180 vítimas dos arapongas que adquiriam informações protegidas pelo sigilo em órgãos públicos e operadoras de telefonia. Entre as vítimas estão dois desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo, um senador, um ex-ministro de Estado, um banco, uma filial de emissora de TV e o prefeito Gilberto Kassab (PSD). Os federais encontraram com a rede de espionagem cópias de extratos de contas de telefone e outras informações sobre Kassab. A PF ainda não apurou o que o grupo pretendia fazer com os documentos. A suspeita é que estariam tramando um golpe de estelionato. Kassab será convidado a depor, como vítima.

A ordem para deflagrar a operação foi dada pelo juiz Márcio Ferro Catapani, da 2.ª Vara Criminal Federal em São Paulo. Ele mandou prender 33 investigados. Ao final de um dia intenso nos Estados de São Paulo, Goiás, Rio, Pará e Pernambuco e no Distrito Federal, a PF anunciou o resultado da operação: 27 prisões, 30 suspeitos conduzidos coercitivamente por ordem judicial e 57 indiciamentos; outros 10 serão enquadrados.

Foram apreendidos 29 veículos, três motocicletas e dinheiro vivo - R$ 304.250, US$ 21.952 , € 5.970,00 e £ 950,00.

Em São Paulo, três bancas de advocacia foram inspecionadas. Um alvo é o escritório da advogada Priscila Correa da Fonseca - doutora pela Faculdade de Direito da USP, professora doutora de Direito Comercial e especializada em Direito de Família e Sucessões e Direito Comercial. A PF fez buscas também na residência de Priscila, no Morumbi. Ela seria cliente do esquema de obtenção de dados sigilosos.

A investigação começou em setembro de 2011, a partir da morte de um agente da PF em Campinas - ele se suicidou em dezembro de 2010, sob suspeita de vazamento de informações das administrações municipais de Hortolândia e Indaiatuba. O nome da operação é alusão à morte do policial - Durkheim, intelectual francês, escreveu O Suicídio.

"No curso da investigação foram identificados dois grupos criminosos distintos, mas que interagiam", disse o delegado Roberto Troncon, superintendente da PF em São Paulo.

Um grupo era especializado na espionagem ilegal, que usava reiteradamente a violação de sigilo fiscal, telefônico, bancário e até consulta de banco de dados criminais. Contava com integrantes que se denominavam detetives particulares. "Há suspeita de que essa organização devassou ilegalmente o sigilo de milhares de vítimas, estimamos em 10 mil vítimas", informou a PF. Grandes empresários são suspeitos como clientes do esquema.

A outra banda da organização, relacionada com policiais, era especializada em remessas ilegais de valores para o exterior. Doleiros operavam na modalidade dólar cabo e euro cabo (remessas virtuais, depois consumadas por meio de lavagem de dinheiro). Dez policiais federais foram indiciados. Outros três, inclusive um aposentado, e dois policiais civis e um PM foram presos.

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