'Operação limpeza' teria levado corpo

Secretário da Junta Militar de Natividade em 1972, Ayram Bispo Macedo admite a possibilidade de o corpo de Ruy Berbert ter sido retirado do cemitério local cerca de dois anos após o enterro, em uma "operação de limpeza" do Exército - o que reforçaria a tese de que o ex-guerrilheiro do Molipo não se suicidou na cadeia, mas foi morto pelos militares. "Ele foi enterrado no cemitério de Natividade, mas houve comentários de que o corpo teria sido retirado. É possível."

NATIVIDADE (TO), O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2012 | 03h05

Ayram recorda-se ainda de uma conversa com um coronel do Exército, em Brasília - no ano seguinte à morte de Berbert -, na qual o militar se referiu ao jovem como o "terrorista que nós matamos em Natividade". A prisão dele, segundo relata, não ocorreu por acaso. O delegado Pedro Lopes, o Pedrão, estaria avisado da passagem de um grupo de guerrilheiros pela região e teria recebido inclusive um comunicado pelo rádio para relatar aos militares qualquer novidade. "Sabíamos que eles estavam vindo da Bahia, depois da queda do Lamarca."

Os documentos da Operação Ilha obtidos pelo Estado também comprovam a importância das forças de segurança locais. "Em pouco tempo, policiais federais de Goiás estavam na cidade. Foi tudo muito rápido", conta Macedo.

Berbert foi preso durante uma batida policial no hotel onde estava hospedado. Como só apresentou carteira de trabalho, foi levado para a delegacia e então preso. Na mochila, tinha uma granada.

Aos 74 anos, o escrivão aposentado diz que, hoje, condena "absurdamente" o que foi feito durante a ditadura militar.

O Estado localizou em Silvanópolis, cidade vizinha a Natividade, a ex-mulher do delegado Pedrão, que morreu há 16 anos. Maria Soares conta que o marido era próximo das principais forças de segurança pública da época. "Pedrão era muito influente. Como veio de Goiás, conhecia todos na secretaria de segurança do Estado." O relatório do SNI sobre a morte de Berbert foi elaborado pela Polícia Federal de Goiás.

Segundo Maria, Pedrão, apesar de reservado, nunca esqueceu a morte do rapaz na cadeia da cidade. "Ele falava que era um moço muito novo, mas que era comunista. Tinha a preocupação de que, você sabe, as aparências enganam, né? Não queria que achassem que tinha acontecido alguma coisa lá na cadeia. O rapaz se matou. Ninguém sabe o porquê."

Fotos. Único fotógrafo de Natividade, Antônio Rodrigues de França, o Tonhera, reconheceu as fotos publicadas pelo Estado. "São minhas mesmo. Eu que fiz." O fotógrafo afirma que foi um dos primeiros a entrar na cela onde Ruy Berbert apareceu morto. "Estava em casa quando o delegado mandou me chamar. Peguei minha máquina Yashica e um filme. Fotografei e fui embora." Tonhera não gosta de falar sobre o assunto. Corta qualquer pergunta e costuma sempre responder com "não lembro" ou "faz muito tempo". Ao entrar pela segunda vez na cela, agora 40 anos depois, emudeceu. Em seguida, desviou o olhar de onde encontrou o corpo. "Ele estava pendurado no canto direito, próximo à parede. Vestia camisa branca, calça e bota", recorda, referindo-se a Berbert como subversivo.

Tonhera diz que fez fotos dele ainda preso à corda, mas essas não constam dos documentos encontrados no Arquivo Nacional. "Fiz umas três e depois outras três no chão. Lembro que as meninas até arrumaram o cabelo dele." O filme foi entregue aos militares. "Se ele quisesse sair, tinha saído. Ele (Berbert) escolheu morrer. A gente não sabe por quê." / A.R.

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