Operação Fratelli expõe laço antigo de deputado e empreiteiro

Carlão Pignatari (PSDB) e Olívio Scamatti, preso preventivamente acusado de liderar a 'máfia dos asfalto' no noroeste paulista, são amigos de infância

FERNANDO GALLO, FAUSTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2013 | 02h09

Eles são amigos de infância. Um é deputado, e o outro, empreiteiro. Há cerca de 20 anos, trabalhavam em um frigorífico. O hoje político era o dono e empregou o amigo como comprador de milho. Trabalharam juntos muitos anos. O empresário virou prefeito e viu o amigo montar uma construtora, que seria contratada pela prefeitura e teria ascensão financeira vertiginosa. O empreiteiro acabaria preso, acusado de desviar recursos de emendas parlamentares.

O deputado estadual e dono do frigorífico é Carlão Pignatari (PSDB), ex-prefeito de Votuporanga (SP). O ex-comprador de milho é o empreiteiro Olívio Scamatti, preso preventivamente pela Polícia Federal e acusado pelo Ministério Público Federal de comandar a chamada "máfia do asfalto" no noroeste paulista. Ele é dono da Demop Participações, cuja sede fica em Votuporanga. Segundo a Procuradoria, a quadrilha fraudava licitações em prefeituras paulistas, custeadas por emendas parlamentares.

A Demop era uma empresa pequena quando Carlão se elegeu prefeito. Seu capital social saltou de R$ 100 mil, em 1999, quando foi fundada, para R$ 10 milhões em fevereiro de 2009 - o tucano foi prefeito entre 2001 e 2008.

Pouco depois de Carlão deixar a prefeitura, Scamatti contrataria na Demop o homem que fora secretário de Obras do tucano. O ex-prefeito viraria deputado em 2011 e contrataria uma cunhada do amigo construtor em seu gabinete na Assembleia Legislativa.

O ex-secretário é Fernando César Matavelli, que também foi preso no dia 9 pela Operação Fratelli. A cunhada do empreiteiro é Sueli Aparecida Seller. Ela ficou no gabinete do deputado por cinco meses. Segundo Carlão, sua função era a de recepcionista e telefonista. Ele afirma que a própria Sueli lhe pediu emprego e que ela saiu para trabalhar em uma empresa dos Scamatti.

Há muitos anos, Carlão também empregou o pai de Scamatti no frigorífico e um irmão do empreiteiro em um fábrica de leite.

Os dois são tão amigos que chegam a ser alvo de brincadeiras. Em uma delas, flagrada pelas escutas da PF na Operação Fratelli, o deputado Itamar Borges (PMDB) liga no celular de Scamatti e saúda o empreiteiro: "Carlão?". E dá risada. Em outro grampo, um homem não identificado pela PF liga e pergunta se está falando com o "sócio do Carlão". Scamatti brinca de volta.

Carlão chegou a ser alvo da investigação do MPF - em 19 de julho de 2010, a Promotoria desistiu de monitorar seu telefone, que vinha sendo grampeado. Ele não tinha mandato na época.

Atualmente, uma obra paga com recursos do Estado liga o político ao empresário: a reforma do aeroporto de Votuporanga, pela qual o Departamento Aeroviário do Estado de São Paulo já desembolsou quase R$ 4 milhões. Carlão indicou ao governo que firmasse o convênio com a prefeitura. A Demop venceu a licitação da obra.

Prisão. O tucano confirma a proximidade antiga com Scamatti e diz ser amigo da família do empreiteiro. Não foi vê-lo na prisão, contou, porque no fim de semana passado seu filho se formou. Visitou os pais do empresário, os quais disse ter encontrado "muito abatidos". "São pessoas de muita idade", diz.

Carlão afirma que ele e Scamatti estão brigados desde agosto. "Tivemos um problema e não nos falamos mais", diz, sem revelar o motivo. Sobre a prisão do amigo de infância, disse apenas: "Não conheço direito o processo. Não tenho condição de opinar".

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