Opção precoce por Aécio rompe tradição tucana

Desde a sucessão de FHC, em 2002, PSDB deixa escolha de candidato ao Planalto para o ano da eleição presidencial, em função de disputas internas

ISADORA PERON, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2013 | 02h07

Nunca antes na história deste país o PSDB lançou uma candidatura à Presidência da República com tanta antecedência. Em dezembro, faltando um ano e dez meses para as eleições, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que o senador Aécio Neves (MG) seria o nome tucano para a corrida presidencial de 2014. Assim, o PSDB deixou para trás o histórico de adiar ao máximo essa decisão.

O motivo para postergar o anúncio de quem seria o candidato da sigla costuma ser o mesmo, eleição após eleição: a falta de consenso em torno de um único nome. Aliar as ambições pessoais e os interesses partidários não foi tarefa fácil no ninho tucano nos últimos anos.

Até neste momento, em que o presidente nacional da sigla, Sérgio Guerra, tem repetido por toda parte que Aécio é o candidato "da grande maioria do PSDB", ainda há descontentes. Setores do partido, em especial tucanos de São Paulo, estão insatisfeitos com a condução do processo, que inclui a escolha do senador como presidente nacional da legenda.

Segundo afirmou FHC em entrevista ao Estado na semana retrasada, o anúncio antecipado da candidatura de Aécio teria sido "inevitável" diante das ações do PT e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em prol da reeleição da presidente Dilma Rousseff. Fernando Henrique, no entanto, disse que suas declarações sobre o senador mineiro tinha como objetivo inicial apenas fortalecê-lo dentro da sigla.

A existência de disputas internas no PSDB ficou mais evidente nas últimas três eleições. Em 2010, por exemplo, a disputa para ver quem seria o escolhido foi entre Serra e Aécio, que só retirou a sua pré-candidatura a dez meses das eleições.

Em 2006, os protagonistas da disputa foram Serra e o então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Quatro anos antes, o então senador Tasso Jereissati (CE) também apresentou-se como rival de Serra e era o nome preferido de Mário Covas, mas foi preterido na escolha.

Desgaste. O cientista político Bolívar Lamounier corrobora a avaliação de FHC e afirma que a campanha à reeleição de Dilma forçou o PSDB a agir. A declaração mais explícita de Lula pela reeleição da presidente foi dada em fevereiro, em comemoração dos dez anos do PT no governo.

O desgate de outros quadros do partido, segundo o professor da USP e consultor político Gaudêncio Torquato, também explicariam a preferência por Aécio. "Serra já disputou a Presidência duas vezes sem sucesso e Alckmin também já concorreu."

Para o filósofo José Arthur Giannotti, a oposição percebeu que, para ter chance em 2014, precisava lançar um candidato o quanto antes. Ele alerta, no entanto, que apenas um nome não será o suficiente para o partido voltar ao poder. "Não basta definir quem vai ser o candidato, é preciso definir sobre o que ele vai falar." Para Giannotti - que se autonomeia "tucanoide", isto é, uma pessoa que pode votar em outras siglas -, falta ao PSDB um discurso que não se baseie apenas em críticas à atual gestão.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.